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O DNA DO FIM E A NECESSIDADE DE REFUNDAÇÃO
Antes de qualquer avaliação sobre o cenário da Curva Sul do Estádio Beira-Rio, é necessário compreender como funciona uma barra brava. Sem os clichês, sem frases de senso comum que habitam a pouca inteligência de quem comenta sobre torcidas.
É óbvio que lideranças de barra vivem todos os dias sob pressão. E é claro que essas figuras não conseguem ter uma vida comum. Uma vida baseada na grande maioria da população: sair de casa, trabalhar, passar o final de semana com os filhos, ir ao parque. Quem é líder de torcida não vive assim.
Não pense que Mauro Martín e Rafa Di Zeo, lideranças da La 12 do Boca Juniors — maior barra brava da América Latina — vão ao cinema aos sábados ou cumprem expediente em algum escritório. A rotina de uma liderança de barra é outra. E por não ter essa vida comum, por viver sob risco, por muitas vezes ser alvo, é natural que vivam da torcida. Sim, se sustentem da torcida. Isso não significa transformar a barra em um negócio. Porque ou tu faz torcida, ou tu ganha dinheiro. As duas coisas não dá.
Na Popular, o que sempre foi um ponto de atenção foi a estrutura: se a torcida seguiria como um setor da arquibancada ou se perderia como torcida ao adotar o modelo de organizada. Esse foi o centro do primeiro grande racha da Guarda Popular, entre Hierro Martins e Master Castro.
Naquela época, Hierro defendia a unidade e a centralidade da Popular. Acreditava que barra brava não tem filiais, não tem núcleos autônomos, não tem identidade pulverizada. Cada cidade poderia ter a sua faixa, mas jamais a sua “Popular Santa Maria”, “Popular Caxias”, “Popular Uruguaiana”. Porque Popular não é torcida: é o setor. E a identidade da barra se constrói nesse espaço.
Master, por outro lado, defendia a expansão. Tinha mais diálogo com o interior e com integrantes que desejavam levar a identidade da torcida para suas cidades. E, aos poucos, esse modelo foi se consolidando.
Com a saída de Hierro, Giba assume o comando da Curva Sul. Mas é com Diego que o setor começa a ser transformado, progressivamente, em uma torcida organizada — com núcleos independentes, faixas próprias, líderes locais e, sobretudo, ausência de comando.
Após alguns anos de Diego à frente da torcida, os núcleos passam a ter vida própria. Deixam de responder à liderança — por mais patética e inoperante que ela seja. Cada cidade com seu uniforme, sua identidade visual, sua própria leitura daquilo que deveria ser uma barra. Exatamente como Hierro alertou que aconteceria.
Diego assume o comando sem referências de barra brava. E sem referências, abre mão da alma da Popular. Prostitui a torcida ao se aliar a casas de apostas, entregando a barra nas mãos do capital. Foi o primeiro “capo patrocinado” da América Latina.
E o resultado é esse: uma estrutura viciada, com faixas perdidas, com ausência de comando, com lideranças improvisadas, com gritos sem identidade, com membros que sequer compreendem o que é viver uma barra.
Não é exagero: hoje, o atual “capo” da torcida possui entre seus apoiadores torcedores do Grêmio. Imaginem os Borrachos del Tablón do River Plate tendo como apoio integrantes do Boca. Seria um escândalo. Aqui, virou rotina. Patético.
Hierro avisou. Avisou sobre os riscos da criação de núcleos. Avisou sobre o fim da unidade. Avisou que barra não se fragmenta. Que barra tem alma. E quando se perde a alma, não se reconstrói com grito, se reconstrói com convicção.
É por isso que nós não estamos nessa guerra. Não entramos nessa disputa entre egos e vaidades. Estamos em reconstrução.
Fomos ao último clássico com apenas 30 pessoas. Dessas 30, doze eram da primeira caminhada da torcida. Gente que não pisava no Beira-Rio há anos. Gente que viu o setor ruir aos poucos. Gente que voltou. Porque sabe que a refundação começa assim: pequena, mas firme.
A Curva Sul precisa de refundação.
Porque a estrutura está toda contaminada por um modelo de torcida organizada. Porque não existe mais identidade de barra. E porque não dá mais pra aceitar que cada núcleo se ache maior que o setor.
Não estamos em guerra. Estamos em reconstrução.
E ela não virá pela carnificina que se desenha — mas pelo resgate da alma que fundou a Guarda.
Quem construiu essa história sabe: barra brava não se herda. Barra brava se vive.

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