Leandro Iamin@leandroiamin
🌎Postei crônicas de Copa aqui no último mês. Vi há pouco os números de interações e alcance, e são muito maiores do que poderia supor e desejar. Quase 4 mil seguidores novos, inclusive. Funcionou. Vou contar uma história, peço licença.
Em 1998, quando sofria com uma mudança radical em minha vida, envolvendo luto e mudança geográfica e social, não conseguia interagir. Travei. Me sentia um bicho. Um dia, na escola onde eu era novo, três meninas, daquelas com pinta de populares, se revezaram em uma atividade: parar na minha frente e fazer uma dança sensual. Era como se apostassem entre elas: quem faz aquele menino estranho reagir? Se dedicaram a uma pequena performance que, em contexto ajustado, seria o sonho dos rapazes da escola. O contexto real era a minha vontade, frustrada por elas, de não ser visto. Não reagi. Só olhei, derrotado, sentado no chão, no fim de uma rampa de acesso às salas. Erotizei a cena depois, na minha solidão segura de casa. Ali, na escola, eu só tinha uma companhia segura: uma agenda, na qual rabiscava o meu mundo e me evadia do real. A mudança referida acima foi em maio. A Copa de 98 foi vivida nesse choque.
Um dia essa agenda foi roubada pela Karen e pela Lidiane, garotas bacanas, mas curiosas, da sala. Levaram-na para o banheiro feminino antes que eu alcançasse. Achavam que eu escrevia um diário de confissões no meio das aulas. Qual o quê: tudo que viram foram "notícias" de um cenário paralelo, fictício, de futebol. O futebol que eu simulava no meu quarto, de variadas formas, era especulado em aula na agenda. Era constrangedor, também. Se lá tivesse confissões de vida, eu poderia ser visto como um jovem malicioso ou um pervertido. Mas eram só notícias inventadas de futebol, textinhos, entrevistas, e eu me sentia, ali, um nerd estranho e desajustado. Preferia, acho, ser pervertido - quem sabe assim teria até dançado com as três garotas na rampa.
Assim foi, desde sempre, o futebol para mim. Um lugar suspenso. Naquela escola, aos poucos, fui me enturmando graças ao futebol jogado, não o escrito. Era onde eu reagia. Sem modéstia, era o melhor da sala, e só não da escola porque o Diego Apagão, juvenil da Portuguesa, era um bárbaro, um dínamo, devia ter virado titular da Lusa. Tenho convicção de que só fui um bom jogador de futebol por necessidade de me sentir vivo. Porque ali, na frente daquelas garotas dançando, eu, pela primeira vez, quis morrer. Mas falava contigo sobre a escrita, a agenda, e o que me traz a esse texto é te contar isso: redação era o meu maior pesadelo escolar. O maior. Simplesmente não conseguia escrever três linhas. Não rolava. Um dia minha mãe deu uma dica despretensiosa. "Filho, você sabe encher linguiça?". E me explicou. "Começa a enrolar. Se vai falar da casa da sua tia, diz que tem uma árvore, que a parede é branca, o azulejo é vermelho, que tinha nuvem no céu. Enche linguiça e preenche as linhas."
Foi assim que descobri que escrever poderia ser legal - e daria para preencher as 15 linhas mínimas que a lição de casa exigia. Fui de zero a cem, virou matéria desejada, não um pesadelo. Quando dei por mim, "encher linguiça" tinha virado minha oportunidade de delirar e um motivo para observar as coisas ao redor. Escrever se tornou meu remédio para o desajuste angustiante. Quando fui elogiado pelo que escrevia, até faculdade de jornalismo quis fazer. Na Copa de 2002 escrevi um livro inteiro, na caneta, pegando um velho e vazio caderno de ata com umas 200 páginas. Que deus preserve este livro onde ele estiver. Meus quadros e livros, minhas coisas em geral, às portas da Copa, estão extraviados em algum lugar, reflexo e consequência de uma vida que desmoronou, e, de tudo que talvez nunca mais encontre, só este livro (e um quadro autografado do Ademir da Guia) realmente me interessa.
Mas esta palavra, interesse, talvez seja exagerada. Não tenho mais muita clareza do que seja uma coisa que realmente me interessa. Perdi essa característica, como quem perde o olfato depois de um traumatismo cranioencefálico (trabalhar no Ministério da Saúde tem me dado um glossário meio exuberante). A Copa do Mundo está me dando uma pista, uma dica de como é. Tanto é que, depois de meses sem conseguir interagir, de novo travado, resolvi encher linguiça com vocês. Sobre bola, sobre campo, sobre o que lembro e penso, porque, desde minha agenda lá em 98, é um pouco de futebol que me espanta a tristeza e o desajuste. No resto do tempo, hoje, não me faz tanta falta nutrir grandes curiosidades. Só quero dar conta de um dia por vez, ser gentil e não atrapalhar o dia de ninguém. Já me parece um luxo. Tem posfácio que é melhor que o livro.
Vou usar este feriado prolongado para descansar muito. Não farei texto algum. A internação em uma Copa com 40 jogos a mais será pesada, e não abro mão da experiência completa. Acabo de ter 14 meses de atividade laboral muito desgastante, mas escolhi tirar férias no dia da abertura da Copa, para vê-la, ao invés de escolher descansar debaixo de um coqueiro. Preciso da Copa, mais do que de descanso. Semana que vem trago novidades importantes.