Coluna Vermelha@CurtaVermelha
Têm surgido rumores que Luís Filipe Vieira planeia candidatar-se de novo a Presidente do Benfica. Há vários anos que o LFV é uma personagem polarizante na massa adepta do Benfica.
Amado por uns, habitualmente mais velhos — que passaram por Damásio, Vale e Azevedo, Vilarinho e vêem agora no Rui Costa uma extensão desses anos 90 —, odiado por outros, habitualmente mais novos.
Se em 2020 já não havia razões para confiar em LFV, mas ainda não havia provas factuais, em 2025 já há provas. Em 2020 não havia auditoria. Em 2025 continua a não haver uma auditoria que nos explica tudo o que aconteceu 2003 a 2021, mas já temos uma auditoria que apenas raspa na superfície, apenas analisa 51 contratos, e já é evidente o que aconteceu.
A auditoria deixa em claro que cada contratação que o Benfica fazia, cada renovação de contrato que o Benfica fazia, podia ser uma oportunidade para o Benfica, liderado por Luís Filipe Vieira, pagar muito mais do que o suposto em comissões aos agentes, muitas vezes pagos para empresas que ou estavam em offshores ou eram detidas por outras empresas que estavam em offshores.
O trabalho do auditor é meramente este: dizer que foi pago X, que se devia ter pago Y, e que o dinheiro foi para a empresa Z, que está localizada em tal parte. Se tal parte for uma offshore — que foi o caso em muitos destes contratos — o dinheiro pode seguir vários destinos possíveis. Mas o auditor não é a polícia. E as offshores são offshores precisamente porque não facilitam o trabalho à polícia.
Nos 51 contratos analisados pela EY, o Ulisses Morais aparece envolvido em 25. Ao todo recebeu 10.87 milhões em comissões. A maioria pagas para a sua empresa US11, detida pela Bibella Investments, sediada no Panamá, onde o dinheiro deixa de ser rastreável.
O ex-líbris das trafulhices a envolver o Ulisses Morais — e há mesmo muito por onde escolher — foi quando o Benfica lhe pagou 600 mil euros para renovar com o Ronaldo Camará, na altura com 16 anos. A FIFA recomenda que as comissões para o agente neste tipo de contratos sejam 3% da remuneração bruta do jogador. O Ulisses Morais levou para o Panamá, 980% da remuneração bruta do jogador. O Benfica pagou quase nove vezes a mais ao agente para renovar o contrato do que ao jogador durante o seu contrato. 326 vezes mais do que a FIFA recomenda.
O Benfica não pagou 326 vezes mais do que a FIFA recomenda para assinar um contrato com um jovem de 16 anos porque calhou. O próprio Ulisses Morais tratou da transferência por empréstimo do Mitroglou e recebeu 100 mil euros de comissão (e mesmo assim recebeu 30% a mais do que deveria ter recebido). Como é que se explica pagar 600 mil euros para renovar com um jogador de 16 anos, e 100 mil euros para assinar com um jogador que marcou 25 golos na equipa principal? Não se explica. As comissões eram o sistema de Luís Filipe Vieira. E é importante que as pessoas percebam que isto não é cherry picking dos jogadores. Há vários exemplos destes.
Eu há algum tempo que defendo que o Costismo não é o Vieirismo. E continuo a acreditar nisso. O Costismo tem muito problemas também. Mas com Luís Filipe Vieira, o que nós adeptos pedíamos era investimento desportivo. E isso aconteceu com o Rui Costa. Se calhar até aconteceu demasiado.
Rui Costa vende tanto como Luís Filipe Vieira vendia. Mas investe muito mais. Investe muitas vezes mal e isso é outra parte da história. Mas investe muito mais. Investe mais porque Luís Filipe Vieira tinha que pagar 600 mil euros para renovar com o Ronaldo Camará, 500 mil euros para assinar contrato como o Pêpê Rodrigues, 500 mil euros para assinar com o Erdal Rakip, 300 mil euros para assinar com o Pelé, e a lista continua e é enorme. Todos estes jogadores fizeram um total de zero jogos pela equipa principal, em todos estes jogadores o agente que recebeu a comissão foi o Ulisses Morais. O Ulisses Morais recebeu até 70 mil euros por um jogador que fez três jogos nos S19 em dois anos.
A lista continua. Com o Ulisses Morais e com outros agentes. São só 51 contratos. Durante o reinado de Luís Filipe Vieira houve muito mais que 51 contratações e renovações.
Isto não invalida outras coisas boas que Luís Filipe Vieira fez no Benfica. O Jorge Jesus foi a sua quarta ou quinta aposta para treinador, mas foi um tiro em cheio. Foi o melhor treinador do Benfica no primeiro quarto do Século XXI. O Seixal foi uma obra monumental que Luís Filipe Vieira deixou no Benfica. Mas com Luís Filipe Vieira, o Benfica nunca pôde ser o Benfica. Boa parte do dinheiro do Benfica, boa parte do dinheiro dos sócios, foi gasto para enriquecer Luís Filipe Vieira e os seus companheiros. O Rui Costa não mudou assim tanto a gestão do Benfica, e gastou mais em reforços num só mandato do que Luís Filipe Vieira em 18 anos à frente do clube.
Se ainda assim, Luís Filipe Vieira for a eleições, espero que todos os Benfiquistas, antes de ir votar, façam Ctrl+F no Relatório da auditoria da EY, escrevam Ulisses Morais, e vejam o que se passou nos mandatos de Luís Filipe Vieira. É uma pequena amostra. São só 51 contratos.
Não há condições para voltar a trazer este homem para o Benfica. Pelo bem do próprio Benfica.