David Deccache@deccache
1. O início (30 de outubro de 2024)
O Botafogo anuncia a venda de Igor Jesus para o Lyon por cerca de €35 milhões (~US$ 43,1 milhões). No papel, isso seria uma das maiores vendas da história recente do futebol brasileiro. No papel.
2. A operação financeira
O Lyon já estava quebrado. Não fazia muito sentido econômico comprar um jogador nesse valor à vista naquele contexto. Então o que acontece? A venda gera um crédito para o Botafogo: o Lyon passa a dever €35 milhões ao clube.
3. O tal factoring citado na matéria da Bloomberg
Aí entra um fundo fazendo o tal factoring. Apesar do nome complicado, a lógica é simples. O fundo chega e diz ao Lyon: “eu antecipo esse dinheiro agora para você pagar o Botafogo e depois te cobro com juros”. Ou seja, surgem €35 milhões em dinheiro real com base nesse contrato. Em uma operação normal, essa grana deveria chegar ao Botafogo.
4. Mas aí começa a esquisitice
Esse dinheiro nunca apareceu no Botafogo. Basta olhar a sequência: dificuldades de caixa, dívidas e até transfer ban.
Pior: o Lyon também nega ter dívida com o Botafogo. Então cadê a grana? O dinheiro existe — €35 milhões foram antecipados e gerou uma dívida gigantesca para o Lyon — mas o Botafogo não viu. E o Lyon diz que não deve, até porque nunca teve o Igor Jesus por lá. Mas vamos continuar.
5. Transferência fantasma e dívida muito real
Igor Jesus nunca foi para o Lyon. A transferência existiu no papel, mas não se materializou na prática. O jogador seguiu no Botafogo, enquanto a dívida do Lyon com o fundo continuou existindo e crescendo.
Ou seja: o Botafogo perdeu o jogador (primeiro no papel, depois em campo), o Lyon nunca teve o jogador de verdade e a dívida seguiu aumentando.
Agora, essa operação aparece ligada a cobrança judicial de cerca de US$63 milhões contra o Lyon. Com juros, multas e encargos, os €35 milhões viram uma dívida gigantesca por um jogador que nunca jogou lá. Não se sabe, ao menos, se os €35 milhões iniciais foram aplicados inteiramente no Lyon.
6. A segunda venda (5 de julho de 2025)
Poucos meses depois, já em 2025, Igor Jesus é oficialmente transferido para o Nottingham Forest, clube de Evangelos Marinakis, parceiro frequente — e bastante conveniente — de John Textor.
7. O derretimento do valor
Aqui surge outro ponto central. O jogador que “valia” €35 milhões na primeira transação (com o Lyon) agora aparece sendo vendido por algo entre £10 milhões e €20 milhões (a imprensa não é clara sobre o valor real). Se trabalharmos com algo perto de €15 milhões, estamos falando de um derretimento de cerca de €20 milhões em poucos meses.
8. E aí surge a hipótese assustadora
Que buraco é esse? O jogador caiu de €35 milhões para algo como €15 milhões mesmo estando valorizado e chegando à seleção?
O que explica a diferença entre €35 milhões e €15 milhões?
Esses €20 milhões de diferença foram simplesmente um “desconto” para o Nottingham Forest? Textor é bonzinho com amigos e vende barato, abaixo do valor de mercado?
Vale lembrar que existem disputas pelo controle da Eagle Football e pelos ativos ligados ao Textor, né?
Se há risco de perda de controle dessas estruturas, fortalecer o caixa dos clubes talvez não seja exatamente interessante para o Textor, certo?
Se você pode perder a sua casa amanhã para um banco, faria uma mega reforma antes de entregá-la ou faria o oposto e tiraria de dentro tudo que pudesse?
Surge então a suspeita incômoda: parte desse dinheiro pode estar sendo capturada fora da estrutura formal dos clubes?
Se for isso, estaríamos falando de desvio de recursos. É uma hipótese grave. Mas grave também é a sequência dos fatos.
Para onde foram os €35 milhões da antecipação? E esses €20 milhões foram apenas um desconto estranho para o Nottingham Forest?
9. Portanto, há alguns indícios que:
- o Botafogo perdeu o jogador e não viu a grana
- o Lyon ficou com uma dívida de US$63 milhões
- o jogador foi parar no clube de um parceiro de negócios de Textor por algo como €15 milhões, mesmo tendo gerado uma dívida de US$63 milhões e ter sido avaliado em €35 milhões
- e o dinheiro não aparece de forma transparente nem aqui e, ao que parece, só parcialmente lá.
Alguém poderia começar a desconfiar que existe uma estrutura paralela drenando valor dos clubes em direção ao próprio Textor enquanto essas disputas societárias acontecem, certo?
10. Se essa hipótese for sequer parcialmente verdadeira, a pergunta passa a ser outra:
Vale à pena deixar quem estruturou essas operações continuar controlando o Botafogo enquanto ainda restam ativos valiosos como Montoro e Danilo?