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Bem.. Essa discussão viralizou de novo. Não posso deixar passar.
"Carta aberta ao fandom de One Piece sobre Yamato e transgeneridade.
Uma das discussões mais repetitivas de One Piece é sobre Yamato ser homem ou ser mulher. Os personagens o tratam no masculino e ele foi desenhado no banho misto. Ao mesmo tempo, o Vivre Card a chama de mulher e conteúdo oficial de One Piece a coloca em posição de mulher. Essa carta não tem como objetivo fazer uma análise do conteúdo oficial, da narrativa ou das intenções do autor com esse personagem. Tampouco eu me encontro em uma posição de transmitir conhecimento a respeito disso, pois me situo aqui como homem cis que não é especialista na área e tem uma leitura superficial sobre o tema. O objetivo desse texto é, além de me posicionar, escancarar que o que acontece na fandom não é de forma alguma (e nunca foi) um debate sobre o gênero desse personagem. É um debate inútil e de extremo mau gosto sobre usar a intenção do Oda como justificativa para aceitar ou negar a existência da transexualidade de um personagem.
Inútil porquê, como falei, não tá debatendo sobre o personagem ser ou não transexual. O que é transexualidade? O que é gênero? O que é mulher e o que é homem? Qual literatura existe sobre isso? Nada disso entra em pauta. A discussão é uma eterna “o que o Oda quis dizer com isso?”, ou seja, qual seria a opinião do autor sobre o Yamato ser mulher ou homem. Isso por si só já é completamente irrelevante porque a opinião do Oda não vai ser o martelo que vai viabilizar ou inviabilizar a leitura de um personagem como trans. Mas o maior problema é que quando vocês argumentam dessa forma, o único objetivo é usar uma carteirada para se posicionarem politicamente sobre o tema sem serem questionados politicamente sobre isso.
Sim, você está se posicionando politicamente, mesmo que pense que não. Você precisou, mesmo que internamente, construir uma percepção e opinião sobre O QUE É transexualidade e quais são as “bordas” que delimitam isso em uma pessoa ou em um personagem fictício. Quando o autor escreve “filha” ou “filho”, isso já faz parte de uma percepção do que define essa identidade: “Se falou filho, é trans. Se falou filha, é cis”. Que regras são essas? Em qual pesquisadora ou autor sobre gênero você está se baseando? Não está, é uma percepção pessoal que perpassa apenas ao entendimento popular, enquanto a discussão sobre transexualidade e gênero tá há anos-luz disso. E o entendimento popular é inseparável da percepção social e política sobre o que é transexualidade.
Entenda, quando vocês falam “é mulher” ou “é homem”, vocês não estão enganando ninguém, nem a si mesmos. Vocês sabem muito bem que significa “EU não considero essa definição de transexualidade logo essa existência como uma existência trans não existe” ou “EU considero essa a definição de transexualidade logo essa existência como uma existência trans existe”. E todo mundo aqui também sabe que isso são bandeiras políticas, que isso só existe como forma de debate porque existe o debate sobre a existência ou não dessas pessoas na vida real.
Notem que eu não estou sequer entrando no mérito de “querer colocar política em One Piece”. Não estou falando absolutamente nada sobre o mundo de One Piece, sobre narrativa da história ou até sobre o Yamato em si. Estou falando que, sinceramente, foda-se o Oda. Se ele aparecer e falar “Yamato é uma mulher” ou “Yamato é um homem” a discussão permanece igual porque na verdade tudo isso é apenas um cabo de guerra entre pessoas que se posicionam politicamente em apoiar a causa trans e pessoas que não ligam, não querem, não gostam ou se posicionam politicamente contra a causa trans.
E é por isso que essa também é uma discussão de extremo mau gosto. Independente de qualquer mangá, parece ser muito difícil de entenderem que falar de transexualidade é falar de gente real, que existe e que existiu. Independente do que VOCÊ acha sobre um personagem fictício baseado nas suas conclusões pessoais e políticas, a sociedade também usa esse mesmo pretexto para apagar pessoas e negar vivências. Citando a Dra. Amara Moira:
“Pergunte a qualquer mulher trans quais as duas frases que a gente mais ouve quando sai à rua e a resposta será justamente “vira homem” e o seu oposto, “é homem”... Ambas as coisas, ditas pela mesma pessoa às vezes, o que chega a ser desconcertante. A primeira delas diz que não somos ou não estamos sendo homem (e implicitamente parece defender que deveríamos sê-lo, nosso dever), a outra parece querer nos lembrar do genital que temos ou que já tivemos”
Por ser uma discussão que eu pessoalmente considero deletéria a vida e a liberdade das pessoas existirem da forma como elas se sintam mais realizadas (que pra mim é o cerne de One Piece), eu reafirmo meu compromisso de nunca discutir publicamente sobre o conteúdo de One Piece ou as intenções do Oda nesse assunto. Entretanto, assim como todos vocês, não consigo não me posicionar politicamente sobre:
Por apoio a pessoas trans, não binárias, intersexo e todos as outras formas de performar gênero e sexualidade que existem e que são apagadas, eu sempre chamarei Yamato com pronomes masculinos ou de qualquer outra forma que reconheça ele como uma existência trans. Para mim, do pouco conhecimento que agradeço por terem me passado, ser trans não é sobre se impor em um outro corpo de forma binária. A performance de gênero é parte de ser trans e de ser cis, o tempo todo eu e vocês que estão lendo estamos performando nosso gênero de alguma forma. E para mim o Yamato é um excelente exemplo de uma vivência trans que não é marcadamente performática, no sentido de sua existência ser um drama ou ser sua personalidade, como são os okamas e a maioria dos personagens queer criados por autores cis. Considero a importância desse exemplo levando como base a autora trans Zênite Astra que diz:
“…porque há um traço marcante das experiências trans que é a necessidade inegociável de correr atrás de uma existência genuína. não queremos (somente) ouvir, assistir e ler histórias sobre como existe toda uma sociedade que despreza as nossas existências. queremos lembrar de tudo aquilo que vale a pena, do que nos faz pertencer. frente a um mundo hostil, nos fortalecemos em nossos afetos e em nossas comunidades.”
Deixo aqui também minha discordância quanto ao pensamento: “Yamato não quer ser homem, quer ser Oden”
É bem comum nas narrativas ficcionais sobre pessoas trans existir esse fascínio por uma outra pessoa, o desejo de se tornar outro alguém, principalmente do gênero oposto ao que foi designado. Isso faz parte da vivência e da experiência de muitas pessoas trans e falar que isso significa não ser homem trans é mais uma vez negar a existência dessas pessoas sem ter a menor responsabilidade ou sequer letramento sobre o assunto. É uma borda aleatória entre trans e cis que você concluiu por conta própria mas que não existe na realidade concreta, usando exclusivamente a sua vivência como pessoa cis. Independente do Oda ter pensado nisso e independente se em algum capítulo Yamato resolver que quer ser tratado como mulher, isso não desfaz ou apaga a experiência trans que ele viveu. Querer ser Oden passa por querer ocupar o que entendemos sobre masculinidades. Ele sempre estará marcado pela transição de gênero, por ser chamado no masculino, por usar o banheiro masculino, por querer ser outra coisa. Isso não some. Citando mais uma vez a Dra. Moira:
“Quem só se dispõe a ver o movimento trans como luta para garantir que possamos, por meio de cirurgia e tratamento hormonal, transformar nossos corpos ainda não foi capaz de ver o quão fundo estamos mexendo naquilo que se compreende por masculino, feminino, homem, mulher, gênero…Exemplo? Corpos e mais corpos se afirmando trans mesmo sem se valer de hormônio ou cirurgia, homens trans abrindo mão de disfarçar os seios e podendo inclusive dizer que isso não faz deles menos homens… muitas pessoas se permitindo manter o nome de registro mas forçando-o a existir agora sob um novo gênero (a Raul, a Guilherme, a Laerte, o Priscila) ou sob gênero algum…Ninguém nasce querendo fazer cirurgia ou tomar hormônios, ninguém traz no DNA a necessidade de ter um genital outro que não aquele com que nasceu”
Por questões extremamente pessoais, tomei a decisão de não me envolver com brigas e tretas. Essa página não é sobre isso e nem eu. Por isso, não me importo de conversar sobre o assunto e trocar ideias com quem tiver interesse. Não tenho como mudar a opinião de ninguém e nem tenho o menor interesse em fomentar ódio ou brigas, então sintam-se livres para não lerem ou para discordar completamente de mim. Mas eu não irei bater boca ou debater e vou bloquear quem fizer qualquer tipo de comentário ofensivo ou transfóbico. Como eu disse, é uma carta, não uma tréplica.
A única coisa que recomendo de verdade, seja se você concorda comigo ou não, é: Não caiam nessa discussão de merda. Vocês não tão debatendo o gênero desse personagem! Sejam sinceros com vocês mesmos de que vocês só querem chamar de “ela” ou “ele” por como vocês enxergam a ideia de gênero em vez de fazer um circo em volta de painéis e conteúdo extraoficial.
Se vocês acham que estou errado e tem realmente interesse em entender se você e os outros deveriam ou não usar pronomes masculinos ou femininos pro Yamato, então LEIAM literatura sobre gênero e transgeneridade e discutam sobre isso! O Brasil e a América latina são referências mundiais nesse tema."
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