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A SATOR cultiva livros que fecundam o mundo — revelando autores novos e esquecidos nas sendas da sabedoria, da ficção e da filosofia.
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Milton Gustavo (@MiltonGust13865) da voz a un viejo ácido, uno de los personajes más memorables de la ficción brasileña reciente, cuya sinceridad hiere, divierte y redime.

Español
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Muito me surpreende que o meu romance "As Almas que se Quebram no Chão", publicado em 2010 (revisto e ampliado em 2024, quando ganhou sua versão definitiva), ainda hoje suscite leituras críticas tão generosas como a que segue:
Análise crítica por Thiago Ferreira
Aviso: esta análise pode conter spoilers.
Li, neste mês, "As almas que se Quebram no Chão", do escritor brasileiro e contemporâneo Karleno Márcio Bocarro . A obra narra uma série de quedas e fracassos que vão desde os insucessos políticos do comunismo na Alemanha oriental até o fracasso na vida individual de Marco Dilthey, o personagem principal da obra. Aliás, os diversos fios narrativos do romance são entrelaçados com a história de Marco, e, por meio deles, vemos o lento declínio e ruína de um personagem até a sua completa destruição moral, espiritual e psíquica, até a sua completa nulificação. Aliás, é assim que a obra é concluída: ele se retira para um lugar que ninguém o encontraria; niemand, niemand, niemand…
Niemand é ninguém em alemão; esse é o resultado de todo o caminho seguido pelo personagem. Aliás, a obra é contextualizada no confronto entre duas culturas: a brasileira e a alemã. Marco Dilthey, cujo nome foi inspirado no filósofo alemão Wilhelm Dilthey (o quanto o personagem expressa ideais do filósofo, isso está além da minha capacidade de análise), viaja para Alemanha Oriental para estudar filosofia no início dos anos 90. Às margens do fim do velho regime, com a queda do Muro de Berlim, ele defronta-se com um ambiente cultural em transformação: entre a repressão socialista e a eficiência egoísta capitalista, uma vida que fervilha entre os dois mundos. Mas, carregado por expectativas e obsessões, a realidade de Berlim sufoca e oprime Marco com a frustração de todos os seus desejos.
É aqui que começamos a lenta e contínua marcha da degeneração do personagem, fundamentalmente por suas obsessões. É angustiante desvelar o abismo de Marco; acompanhamos as várias tentativas do jovem rapaz na busca por seus objetivos e obsessões, movidos pelo desejo sexual e de tornar-se um escritor; impulsionado pela contradição hamletiana entre ser e não ser, ele quer impor-se, ser e definir-se, mas o que se assiste, na obra, é apenas a deformação existencial de um homem. Aliás, essa história é um romance de deformação. Nada na sua vida dá certo; entre os cálculos e cálculos refletidos, todas as decisões do personagem pioram a sua vida.
Ele conhece Bocas, a personificação do mal na obra, personagem que lhe serve como uma ocasião e um modelo de sua destruição moral. Envolve-se com o tráfico de drogas, tem a imaginação pervertida pelas revistas pornográficas e as pulsões sexuais impossíveis constantemente não satisfeitas, sem categorias morais que a vida moderna não pode fornecer para nenhum indivíduo — modernidade que, aqui, surge como um princípio motor para a visão de mundo alemã.
O personagem sofre uma ruína moral e espiritual total e completa. Houve momentos nos quais se lhe abrira oportunidades de mudança e redenção: em certo momento, ansiando por um conforto espiritual, ele procura um volume das Escrituras, mas a vergonha de ser humilhado por tal ato lhe fala mais alto; compra uma revista pornográfica para afastar os próprios fantasmas, enquanto essas imagens preenchiam sua mente com desejos baixos e impossíveis. A Luíza, sua antiga namorada, aparece em certo momento com uma nova oportunidade de mudança, como o seu próprio nome sugestiona: luz. Creio que, nesta obra, fora talvez a única personagem com a qual eu tive consideração e afeição. Mas até essa oportunidade é recusada. Marco arruína-se com a perseguição de seus desejos hedonistas, sem qualquer raiz espiritual e moral que pudesse auxiliá-lo a combater tais vícios.
Enfim, ler "As almas que se Quebram no Chão" foi como receber um forte soco no estômago, ao contemplar o abismo da vida de alguém. Nietzsche, um dos filósofos citados na obra, diz que “quando você olha para o abismo por tempo suficiente, o abismo olha de volta para você”; essa talvez seja a experiência de ler o abismo e degeneração de Marco, pois é um momento para ver que esse também pode ser um abismo no qual se pode cair, bastando a opção de saltar. É desconfortável e é triste, mas é oportunidade para autoanálise quanto às próprias decisões de vida. O abismo da humanidade não é tendência apenas de alguns, mas uma fenda que atravessa a todos.
Ademais, houveram algumas descrições narrativas na obra que me incomodaram ligeiramente, principalmente sobre alguns limites narrativos, e, por um lado pessoal, eu não optaria descrevê-las da forma como foram realizadas, embora tratassem de temáticas necessárias a uma literatura séria e profunda. Apesar disso, é uma obra que indico para quem deseja defrontar-se com o abismo existencial que um ser humano pode alcançar. Já planejo ler a outra obra do Karleno, Advento, recentemente lançada.
(Foto: Gustavo Ponte)

Português

SONETO PURO
Fique o amor onde está; seu movimento
nas equações marítimas se inspire
para que, feito o mar, não se retire
das verdes áreas de seu vão lamento.
Seja o amor como a vaga ao vago intento
de ser colhida em mãos; nela se mire
e, fiel ao seu fulcro, não admire
as enganosas rotações do vento.
Como o centro de tudo, não se afaste
da razão de si mesmo, e se contente
em luzir para o lume que o ensolara.
Seja o amor como o tempo — não se gaste
e, se gasto, renasça, noite clara
que acolhe a treva, e é clara novamente.
Lêdo Ivo
Português
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Parabéns para Milton Gustavo (@MiltonGust13865), que representará a @EditoraSator em Buenos Aires no mês que vem. Estou muito animado com o lançamento do fantástico “Deus oculto no canto do córner” em espanhol!

Português

GORDA
Esta menina gorda, gorda, gorda,
Tem um pequenino coração sentimental.
Seu rosto é redondo, redondo, redondo;
Toda ela é redonda, redonda, redonda,
E os olhinhos estão lá no fundo a brilhar.
É menina e moça. Terá quinze anos?
Umas velhas amigas de sua mamãe
Dizem sempre que a encontram, num êxtase longo:
“Como esta menina está gorda, bonita!”
“Como esta menina está gorda, bonita!”
E ela ri de prazer. Seu rosto redondo
Esconde os olhinhos no fundo, a brilhar.
Às vezes, no espelho, penteando o cabelo,
Ao ver-se tão gorda, tão gorda, tão gorda,
Pensa nas amigas da sua mamãe
E também num rapaz que a olha sorrindo
Quando toda manhã ela vai para a escola.
“Ele gosta de mim! Sou gorda, bonita!”
E os dedos gordinhos, pegando na trança,
Têm carícias ingênuas diante do espelho.
Ribeiro Couto (1898-1963)
Português

SE EU MORRESSE AMANHÃ
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!
Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!
Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!
Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!
Álvares de Azevedo (1831-1852)
Português

A GERARDO
[ a Gerardo Mello Mourão ]
“Maio de 1967, noite de lua cheia, quintal de Ayuruoca, país das Gerais saudações,
muito saudar !
Cantor de além dessas montanhas e quintais:
abrem-se as águas do Mar Vermelho, pisam
o chão molhado tuas alpercatas secas, de couro e poeira
do país dos Mourões
atravessas, courudo e empoeirado as ondas
de volta do êxodo
agora te chamas de novo por teu nome, Gerardo - Gerardo
conversa a conversa do abismo
com Isaías, Jeremias, Habacuc e Amós, digamos, e os outros
a noite da Mantiqueira ensinou-lhes a língua
e falam Troias, Saléns, Jerusaléns, Beléns e Lácios
O Inferno, o Paraiso, o Purgatório nos quintais
de Ayuruoca e Ipueiras
chega o cheiro bom do suor dos cavalos
os cavalos amarrados à porta espumam no chão doméstico
se aliviam de selas, relhos, loros e estribos
pendurados na sala
galopam agora os padres de pedra-sabão com seus barretes judeus,
as túnicas arregaçadas
por estradas de barro e ventos de ontem
uns na garupa, outros na brida
Homero às ondas os bois do mar
aboiamos, Gerardo teu aboio
aos bois das nuvens serranas.
Aboiaste o primeiro aboio e o último aboio
que aboio aqui aos bois da aurora e aos bois da noite
daqui ao vale de Josafá por onde aboia também o teu aboio o Dante
na língua antiga e nova, que aprendeste e ensinas.
Dantas Motta
Português

O DEFUNTO
Quando morto estiver meu corpo,
Evitem os inúteis disfarces,
Os disfarces com que os vivos,
Só por piedade consigo,
Procuram apagar no Morto
O grande castigo da Morte.
Não quero caixão de verniz
Nem os ramalhetes distintos,
Os superfinos candelabros
E as discretas decorações.
Quero a morte com mau-gosto!
Dêem-me coroas de pano.
Dêem-me as flores de roxo pano,
Angustiosas flores de pano,
Enormes coroas maciças,
Como enormes salva-vidas,
Com fitas negras pendentes.
E descubram bem minha cara:
Que a vejam bem os amigos.
Que não a esqueçam os amigos.
Que ela ponha nos seus espíritos
A incerteza, o pavor, o pasmo.
E a cada um leve bem nítida
A idéia da própria morte.
Descubram bem esta cara!
Descubram bem estas mãos.
Não se esqueçam destas mãos!
Meus amigos, olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
Em que sexos demoraram
Seus sabidos quirodáctilos?
Foram nelas esboçados
Todos os gestos malditos:
Até os furtos fracassados
E interrompidos assassinatos.
— Meus amigos! olhem as mãos
Que mentiram às vossas mãos...
Não se esqueçam! Elas fugiram
Da suprema purificação
Dos possíveis suicídios.
— Meus amigos, olhem as mãos!
As minhas e as vossas mãos!
Descubram bem minhas mãos!
Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo,
E até mesmo do meu corpo
As partes excomungadas,
As sujas partes sem perdão.
— Meus amigos, olhem as partes...
Fujam das partes,
Das punitivas, malditas partes ...
E, eu quero a morte nua e crua,
Terrífica e habitual,
Com o seu velório habitual.
— Ah! o seu velório habitual!
Não me envolvam em lençol:
A franciscana humildade
Bem sabeis que não se casa
Com meu amor da Carne,
Com meu apego ao Mundo.
E quero ir de casimira:
De jaquetão com debrum,
Calça listrada, plastron...
E os mais altos colarinhos.
Dêem-me um terno de Ministro
Ou roupa nova de noivo ...
E assim Solene e sinistro,
Quero ser um tal defunto,
Um morto tão acabado,
Tão aflitivo e pungente,
Que sua lembrança envenene
O que resta aos amigos
De vida sem minha vida.
— Meus, amigos, lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
Deste pobre terrível morto
Que vai se deitar para sempre
Calçando sapatos novos!
Que se vai como se vão
Os penetras escorraçados,
As prostitutas recusadas,
Os amantes despedidos,
Como os que saem enxotados
E tornariam sem brio
A qualquer gesto de chamada.
Meus amigos, tenham pena,
Senão do morto, ao menos
Dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
Sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
E olhai os vossos também.
Pedro Nava
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Liquidação insana da Amazon. Carlos Nejar na @EditoraSator:
amzn.to/4sIDjBc
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Acabo de terminar “O lugar incompreensível”, da amiga e diva @renfrri . Alguns dos contos são tão imagéticos que poderiam tornar-se episódios de alguma série com elementos lynchianos. Perceber o Brasil onírico é um feito difícil, mas a @EditoraSator está reunindo a galera.

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Acabei de comprar "As almas que se quebram no chão", @KarlenoBocarro, edição Kindle. (Esperei muito tempo para ler o aclamado romance no meu Kindle.)
Amazon.com.br eBooks Kindle: As almas que se quebram no chão, Bocarro, Karleno, Sabino de Araújo Neto, Felipe
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O economista Lucas Mendes leu o meu romance As Almas que se Quebram no Chão e gostou muito. No vídeo abaixo, suas impressões finais.
instagram.com/reel/DVQo_fbDq…
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Vídeo de lançamento de meu romance O Advento: @editorasator instagram.com/reel/DVM5WeykS…
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Roberson Guimarães sobre o meu romance O Advento.
Texto completo aqui: substack.com/home/post/…

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Primeiras impressões de Marcelo Franco sobre o meu romance O Advento:
Uma vida entre livros e mesmo assim a poeira que certamente me trará fibrose pulmonar ainda revela algumas surpresas. Eu havia lido o nome de @karleno_bocarro num artigo qualquer, creio que do Beto Queiroz, mas o guardei num escaninho cerebral do tipo “Conferir se houver tempo”. Como a literatura brasileira atual, em grande parte, é feita de temas-clichê e vendida por revistas com a Um Sete Um e a Vult, sem contar que a crítica nacional é só elogios para o que se produz neste patropi deitado em berço esplêndido, não retornei ao sótão craniano. A memória sobre autor, então, esfumou-se.
Pois outro dia topei com “O Advento”, que me quebrou unhas, vieses e preconceitos. Somente o comentarei quando terminar sua leitura; porém, ainda nas primeiras páginas, já noto camadas profundas de temas adultos e técnica apurada. Temas adultos, repito. Será uma das leituras do “tríduo momesco”, como diziam os antigos bacharéis, pois sou do Bloco do Bazar Oió (ao Google, jovens goianos). Pelo nome bíblico do protagonista, antevejo o Mal — e talvez culpa sem expiação. A ver.

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“Se alguém é um grande pianista, você pode esvaziar completamente o quarto em que ele está sentado ao piano, enchê-lo de poeira e despejar baldes de água sobre ele: ainda assim continuará tocando. E, se a casa desabar sobre ele, continuará tocando. Com a escrita, é a mesma coisa...” (Thomas Bernhard)
E eu acrescento: tem de ser assim; do contrário, você ainda não pode se considerar escritor.

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Compartilho com vocês o texto excepcionalmente generoso e bem escrito de Roberson Guimarães @robersonguima sobre o meu romance O Advento:
Creio ter sido Shopenhauer quem disse que o acaso é um poder maligno, no qual se deve confiar o menos possível. Por outro lado aquele que não deixa nada ao acaso raramente fará coisas de modo errado, mas fará pouquíssimas coisas. Dia desses fazendo o scroll aleatório no Twitter - mantenho minha recusa em chamar de X – encontrei esse tuíte em um perfil nomeado Obtemperar:
“𝗣𝗲𝗿𝘁𝗼 𝗱´𝗢 𝗔𝗱𝘃𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗱𝗼 𝗞𝗮𝗿𝗹𝗲𝗻𝗼 𝗕𝗼𝗰𝗮𝗿𝗿𝗼, 𝘁𝗼𝗱𝗮 𝗮 𝗮𝘁𝘂𝗮𝗹 𝗹𝗶𝘁𝗲𝗿𝗮𝘁𝘂𝗿𝗮 𝗯𝗿𝗮𝘀𝗶𝗹𝗲𝗶𝗿𝗮 𝗽𝗮𝗿𝗲𝗰𝗲 𝘂𝗺 𝗧𝗖𝗖.”
A ironia fresca e o sarcasmo da frase chamaram minha atenção. O nome suigeneris do autor também. Eu nunca havia ouvido falar em Karleno Bocarro nem em nenhuma de suas obras. Com um clique na loja da Amazon encontrei o livro em preço promocional e sem qualquer outra informação decidi comprá-lo. Depois da compra fiz uma busca rápida e descobri que Bocarro é filósofo e historiador pela Universidade de Humboldt em Berlin. Bem, pensei, há esperança. O livro chegou em menos de 24 horas (é cada vez mais impressionante a logística da Amazon) e li o primeiro capítulo para ver em que senda estava me aventurando. Gostei do que li. Como estou atravessando a releitura da Montanha Mágica de Thomas Mann, resolvi utilizar o livro de Bocarro nos intervalos dos discursos dialéticos entre Setembrini e Nafta para o diletante Hans Castorp (considero essencial ler vários livros ao mesmo tempo, a fruição parece ser alargada).
Veredito: o livro de Bocarro é bom, muito bom. Vamos a algumas considerações sobre ele.
Uma parte importante do romance brasileiro vem sendo atravessada por procedimentos de autobiografia e autoficção, pela centralidade das “escritas de si” (inclusive quando o texto é ficcional, mas sinaliza pacto autobiográfico por paratextos e estratégias de enunciação). Talvez a culpa seja de Knaussgard e Annie Ernaux. Mas divago. Há também uma vertente forte (e de enorme sucesso comercial) que articula memória, corpo e heranças do passado como eixo de conflito e de reposicionamento do sujeito, frequentemente mobilizando vocabulário e problemas associados aos estudos decoloniais.
Bocarro – em paralelo ao que chamarei de romance mainstream brasileiro contemporâneo – situa-se com um texto de feição alegórico-apocalíptica (urbana, paranoica e moral), mais próximo da linhagem distópica e anti-realista e do romance de ideias. O Advento opera num regime em que o social não é primariamente encenado como testemunho identitário nem como '𝘱𝘢𝘤𝘵𝘰 𝘥𝘰 𝘦𝘶', mas como clima metafísico-político: mal difuso, instituições corroídas, pressões do presente, angústia existencial e uma subjetividade que lê o mundo sob suspeita e saturação (aqui o centro estilístico é a atmosfera e a moralização do espaço, não a autorrepresentação.) O resultado é uma prosa que alterna blocos reflexivos e cena dialogal com bastante fala direta, o que reforça a sensação de choque de registros e de “montagem nervosa” que me lembraram alguns procedimentos de Pynchon (falo mais disso adiante). A lógica de Bocarro conversa com o uso do pesadelo (às vezes futurizado, às vezes deslocado) para denunciar o presente, com tendência a finais e visões sem promessa de recomposição e com insistência no corpo e no mal-estar como eixos de sentido. A diferença é que, em vez de especulação tecnológica ou worldbuilding e enciclopedismo - como em Pynchon - o romance parece preferir uma distopia teológica-existencial: o apocalipse como forma de percepção e linguagem.
O contraste não precisa ser lido como “contra” a literatura identitária e a decolonial, mas como uma escolha de mediação estética: Bocarro universaliza (às vezes até o limite do totalizante) a experiência histórica em figuras do mal, da noite, do destino, da corrupção e da angústia. Eu colocaria O Avento mais perto do romance que reativa o trágico político, o delírio conspiratório e a alegoria urbana. Isso o torna, paradoxalmente, “menos mainstream”, mas bastante contemporâneo: ele parece responder ao mesmo presente, mas por uma máquina formal diferente — não a do relato identitário, e sim a da paranoia moral e da antecipação do esfacelamento e da destruição.
O texto d´O Advento revela uma ambição literária alta, deliberadamente afastada da prosa funcional ou minimalista. O autor trabalha com uma escrita densificada, de frases longas, em que a observação social, o comentário psicológico e a imagem poética coexistem no mesmo período. Há clara aposta numa prosa de extração ensaística, herdeira tanto do romance psicológico moderno quanto de uma tradição latino-americana de crítica social incorporada à narrativa (pode-se pensar, em registro distinto, em Vargas Llosa, Sabato ou mesmo um Thomas Mann tropicalizado). O texto sabe que quer ser literatura e não teme o excesso controlado. A dicção é elevada, mas não arcaizante, com preferência por substantivos abstratos e adjetivação de carga simbólica. Há dois campos lexicais recorrentes e bem articulados: um corporal/sensorial e outro moral/existencial/político. Essa justaposição é uma força do texto: o corpo não aparece como mero cenário, mas como interface entre o mal-estar íntimo e a decomposição social. O léxico constrói uma atmosfera coerente de ruína, ameaça e clausura.
O autor demonstra habilidade na criação de imagens estruturantes do clima narrativo. Elas são ambiciosas, densas e pensadas para ecoar além da frase, criando um campo simbólico persistente. Em alguns momentos, a metaforização se aproxima do limite da saturação, sobretudo quando múltiplas imagens competem na mesma frase: “escorrendo das mesas como rasuras derretidas de um longo passado de frustrações”, por exemplo, é potente, mas excessivamente autoconsciente. O leitor atento percebe o gesto literário. Isso não é um defeito em si — mas exige ritmo e parcimônia estratégica ao longo do romance.
A sintaxe privilegia períodos longos, reflexivos, com intercalações psicológicas. O narrador frequentemente se aproxima do fluxo de consciência, sobretudo nos trechos de imaginação e culpa. A voz narrativa é claramente adulta, culta, interpretativa. Não se trata de uma voz transparente ou neutra; ela interpreta o mundo antes mesmo de mostrá-lo. Em certos momentos, o narrador se aproxima perigosamente de um tom sentencioso. Ao optar por essa escrita de forte carga interpretativa, o romance assume riscos claros: a possibilidade de saturação simbólica, a redução da ambiguidade em certos momentos e uma uniformização do ritmo reflexivo. Esses riscos, no entanto, parecem fazer parte do próprio projeto formal, que aposta na persistência do desconforto e na recusa de soluções fáceis. Lido sob essa chave, O Advento se apresenta como uma obra que exige atenção e disponibilidade crítica, interessadas em explorar os limites da consciência individual diante de um mundo percebido como moralmente esgarçado e discursivamente saturado. Trata-se de um romance que não busca conciliação nem síntese, mas que se afirma no atrito entre formas de pensamento, tradições culturais e experiências ordinárias — deixando ao leitor a tarefa de negociar seus próprios caminhos de leitura. Gosto muito disso.
A escrita incorpora referências explicitamente nomeadas e de forte valor simbólico — A Bíblia, Kierkegaard, Nietzsche, Shakespeare — que funcionam como atalhos de densidade: comprimem uma biblioteca de sentidos em poucas palavras e reposicionam o drama individual dentro de uma moldura teológico-existencial. O personagem principal, Aderbal Semei, compartilha o nome do benjamita que amaldiçoou o rei Davi e foi posteriormente executado por Salomão e aparece nos livros de Samuel e Reis. Os livros de Isaías e do Apocalipse (esse último principalmente) são referências fundamentais para a compreensão do texto: suas forças são visíveis nos trechos que exibem as cidades (São Luís e São Paulo) como sintoma; a política como palco de impotência; o corpo como índice de mal-estar, reforçados por um vocabulário onde o mal, a verdade e o absoluto se encontram.
Talvez eu esteja delirando mas percebi nos procedimentos de escrita uma familiaridade com Thomas Pynchon. Sem jamais aderir ao humor entrópico ou à exuberância maximalista de Pynchon, O Advento compartilha com ele um regime de alternância narrativa marcado pela circulação paranoica dos discursos, pela instabilidade dos ambientes e por uma sensação difusa de totalidade opaca que atravessa o íntimo, o político e o religioso.
Ah! mas sobre o que mesmo é o romance? De forma muito simplificada o enredo apresenta o anti-heroi Aderbal Semei, maranhense de Sâo Luís, professor de História, de mudança para São Paulo em busca da concretização de um amor.
Lá “objetos em desarranjo parecem vaticinar-lhe pragas quase míticas. Aka Laurência, a mulher que o amou, talvez o tenha abandonado e levado consigo o discernimento que ao menos permitiria a Semei acautelar-se quanto às linhagens de demônios que insistentemente cerram seus caminhos.” (esse trecho está na apresentação do livro feita pela Editora Sator).
Entre esses 'demônios' há um personagem satírico-luciferiano chamado Demis Margote. Margote é a figura mais espantosa e surpreendente do romance além de ser o código para a compreensão de seu sentido. O livro atravessa temas pesados como compulsão sexual, abuso sexual infantil, pedofilia, magia negra e a corrupção política maranhense. É um prato cheio (perdão pelo clichê).
O Advento, enfim, se inscreve numa tradição do romance que recusa a transparência, aposta no peso da frase e assume o custo de uma leitura exigente mas sempre fluida. O estilo revela um autor consciente de sua voz, com repertório simbólico sólido e clara intenção estética. Não é uma prosa que busca agradar. E isso, hoje, já é uma posição tanto literária quanto estética muito relevante.

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