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A SATOR cultiva livros que fecundam o mundo — revelando autores novos e esquecidos nas sendas da sabedoria, da ficção e da filosofia.

Brasil Katılım Ekim 2025
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Editora Sator@EditoraSator·
SONETO PURO Fique o amor onde está; seu movimento nas equações marítimas se inspire para que, feito o mar, não se retire das verdes áreas de seu vão lamento. Seja o amor como a vaga ao vago intento de ser colhida em mãos; nela se mire e, fiel ao seu fulcro, não admire as enganosas rotações do vento. Como o centro de tudo, não se afaste da razão de si mesmo, e se contente em luzir para o lume que o ensolara. Seja o amor como o tempo — não se gaste e, se gasto, renasça, noite clara que acolhe a treva, e é clara novamente. Lêdo Ivo
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Felipe Sabino
Felipe Sabino@posmilenarismo·
Parabéns para Milton Gustavo (@MiltonGust13865), que representará a @EditoraSator em Buenos Aires no mês que vem. Estou muito animado com o lançamento do fantástico “Deus oculto no canto do córner” em espanhol!
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Editora Sator@EditoraSator·
GORDA Esta menina gorda, gorda, gorda, Tem um pequenino coração sentimental. Seu rosto é redondo, redondo, redondo; Toda ela é redonda, redonda, redonda, E os olhinhos estão lá no fundo a brilhar. É menina e moça. Terá quinze anos? Umas velhas amigas de sua mamãe Dizem sempre que a encontram, num êxtase longo: “Como esta menina está gorda, bonita!” “Como esta menina está gorda, bonita!” E ela ri de prazer. Seu rosto redondo Esconde os olhinhos no fundo, a brilhar. Às vezes, no espelho, penteando o cabelo, Ao ver-se tão gorda, tão gorda, tão gorda, Pensa nas amigas da sua mamãe E também num rapaz que a olha sorrindo Quando toda manhã ela vai para a escola. “Ele gosta de mim! Sou gorda, bonita!” E os dedos gordinhos, pegando na trança, Têm carícias ingênuas diante do espelho. Ribeiro Couto (1898-1963)
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Editora Sator@EditoraSator·
SE EU MORRESSE AMANHÃ Se eu morresse amanhã, viria ao menos Fechar meus olhos minha triste irmã; Minha mãe de saudades morreria Se eu morresse amanhã! Quanta glória pressinto em meu futuro! Que aurora de porvir e que manhã! Eu perdera chorando essas coroas Se eu morresse amanhã! Que sol! que céu azul! que doce n'alva Acorda a natureza mais louçã! Não me batera tanto amor no peito Se eu morresse amanhã! Mas essa dor da vida que devora A ânsia de glória, o dolorido afã... A dor no peito emudecera ao menos Se eu morresse amanhã! Álvares de Azevedo (1831-1852)
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Editora Sator@EditoraSator·
A GERARDO [ a Gerardo Mello Mourão ] “Maio de 1967, noite de lua cheia, quintal de Ayuruoca, país das Gerais saudações, muito saudar ! Cantor de além dessas montanhas e quintais: abrem-se as águas do Mar Vermelho, pisam o chão molhado tuas alpercatas secas, de couro e poeira do país dos Mourões atravessas, courudo e empoeirado as ondas de volta do êxodo agora te chamas de novo por teu nome, Gerardo - Gerardo conversa a conversa do abismo com Isaías, Jeremias, Habacuc e Amós, digamos, e os outros a noite da Mantiqueira ensinou-lhes a língua e falam Troias, Saléns, Jerusaléns, Beléns e Lácios O Inferno, o Paraiso, o Purgatório nos quintais de Ayuruoca e Ipueiras chega o cheiro bom do suor dos cavalos os cavalos amarrados à porta espumam no chão doméstico se aliviam de selas, relhos, loros e estribos pendurados na sala galopam agora os padres de pedra-sabão com seus barretes judeus, as túnicas arregaçadas por estradas de barro e ventos de ontem uns na garupa, outros na brida Homero às ondas os bois do mar aboiamos, Gerardo teu aboio aos bois das nuvens serranas. Aboiaste o primeiro aboio e o último aboio que aboio aqui aos bois da aurora e aos bois da noite daqui ao vale de Josafá por onde aboia também o teu aboio o Dante na língua antiga e nova, que aprendeste e ensinas. Dantas Motta
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Editora Sator@EditoraSator·
O DEFUNTO Quando morto estiver meu corpo, Evitem os inúteis disfarces, Os disfarces com que os vivos, Só por piedade consigo, Procuram apagar no Morto O grande castigo da Morte. Não quero caixão de verniz Nem os ramalhetes distintos, Os superfinos candelabros E as discretas decorações. Quero a morte com mau-gosto! Dêem-me coroas de pano. Dêem-me as flores de roxo pano, Angustiosas flores de pano, Enormes coroas maciças, Como enormes salva-vidas, Com fitas negras pendentes. E descubram bem minha cara: Que a vejam bem os amigos. Que não a esqueçam os amigos. Que ela ponha nos seus espíritos A incerteza, o pavor, o pasmo. E a cada um leve bem nítida A idéia da própria morte. Descubram bem esta cara! Descubram bem estas mãos. Não se esqueçam destas mãos! Meus amigos, olhem as mãos! Onde andaram, que fizeram, Em que sexos demoraram Seus sabidos quirodáctilos? Foram nelas esboçados Todos os gestos malditos: Até os furtos fracassados E interrompidos assassinatos. — Meus amigos! olhem as mãos Que mentiram às vossas mãos... Não se esqueçam! Elas fugiram Da suprema purificação Dos possíveis suicídios. — Meus amigos, olhem as mãos! As minhas e as vossas mãos! Descubram bem minhas mãos! Descubram todo o meu corpo. Exibam todo o meu corpo, E até mesmo do meu corpo As partes excomungadas, As sujas partes sem perdão. — Meus amigos, olhem as partes... Fujam das partes, Das punitivas, malditas partes ... E, eu quero a morte nua e crua, Terrífica e habitual, Com o seu velório habitual. — Ah! o seu velório habitual! Não me envolvam em lençol: A franciscana humildade Bem sabeis que não se casa Com meu amor da Carne, Com meu apego ao Mundo. E quero ir de casimira: De jaquetão com debrum, Calça listrada, plastron... E os mais altos colarinhos. Dêem-me um terno de Ministro Ou roupa nova de noivo ... E assim Solene e sinistro, Quero ser um tal defunto, Um morto tão acabado, Tão aflitivo e pungente, Que sua lembrança envenene O que resta aos amigos De vida sem minha vida. — Meus, amigos, lembrem de mim. Se não de mim, deste morto, Deste pobre terrível morto Que vai se deitar para sempre Calçando sapatos novos! Que se vai como se vão Os penetras escorraçados, As prostitutas recusadas, Os amantes despedidos, Como os que saem enxotados E tornariam sem brio A qualquer gesto de chamada. Meus amigos, tenham pena, Senão do morto, ao menos Dos dois sapatos do morto! Dos seus incríveis, patéticos Sapatos pretos de verniz. Olhem bem estes sapatos, E olhai os vossos também. Pedro Nava
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Marquês de Silverio
Marquês de Silverio@camaradatrabuco·
Acabo de terminar “O lugar incompreensível”, da amiga e diva @renfrri . Alguns dos contos são tão imagéticos que poderiam tornar-se episódios de alguma série com elementos lynchianos. Perceber o Brasil onírico é um feito difícil, mas a @EditoraSator está reunindo a galera.
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Jorge Saffar
Jorge Saffar@jorgesaffar·
Acabei de comprar "As almas que se quebram no chão", @KarlenoBocarro, edição Kindle. (Esperei muito tempo para ler o aclamado romance no meu Kindle.) Amazon.com.br eBooks Kindle: As almas que se quebram no chão, Bocarro, Karleno, Sabino de Araújo Neto, Felipe
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Karleno Bocarro
Karleno Bocarro@KarlenoBocarro·
O economista Lucas Mendes leu o meu romance As Almas que se Quebram no Chão e gostou muito. No vídeo abaixo, suas impressões finais. instagram.com/reel/DVQo_fbDq…
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Karleno Bocarro
Karleno Bocarro@KarlenoBocarro·
Primeiras impressões de Marcelo Franco sobre o meu romance O Advento: Uma vida entre livros e mesmo assim a poeira que certamente me trará fibrose pulmonar ainda revela algumas surpresas. Eu havia lido o nome de @karleno_bocarro num artigo qualquer, creio que do Beto Queiroz, mas o guardei num escaninho cerebral do tipo “Conferir se houver tempo”. Como a literatura brasileira atual, em grande parte, é feita de temas-clichê e vendida por revistas com a Um Sete Um e a Vult, sem contar que a crítica nacional é só elogios para o que se produz neste patropi deitado em berço esplêndido, não retornei ao sótão craniano. A memória sobre autor, então, esfumou-se. Pois outro dia topei com “O Advento”, que me quebrou unhas, vieses e preconceitos. Somente o comentarei quando terminar sua leitura; porém, ainda nas primeiras páginas, já noto camadas profundas de temas adultos e técnica apurada. Temas adultos, repito. Será uma das leituras do “tríduo momesco”, como diziam os antigos bacharéis, pois sou do Bloco do Bazar Oió (ao Google, jovens goianos). Pelo nome bíblico do protagonista, antevejo o Mal — e talvez culpa sem expiação. A ver.
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Karleno Bocarro
Karleno Bocarro@KarlenoBocarro·
“Se alguém é um grande pianista, você pode esvaziar completamente o quarto em que ele está sentado ao piano, enchê-lo de poeira e despejar baldes de água sobre ele: ainda assim continuará tocando. E, se a casa desabar sobre ele, continuará tocando. Com a escrita, é a mesma coisa...” (Thomas Bernhard) E eu acrescento: tem de ser assim; do contrário, você ainda não pode se considerar escritor.
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Karleno Bocarro
Karleno Bocarro@KarlenoBocarro·
Na Livraria da Vila, em São Paulo. Apareçam! Estarei lá, em carne e osso...
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Karleno Bocarro
Karleno Bocarro@KarlenoBocarro·
Compartilho com vocês o texto excepcionalmente generoso e bem escrito de Roberson Guimarães @robersonguima sobre o meu romance O Advento: Creio ter sido Shopenhauer quem disse que o acaso é um poder maligno, no qual se deve confiar o menos possível. Por outro lado aquele que não deixa nada ao acaso raramente fará coisas de modo errado, mas fará pouquíssimas coisas. Dia desses fazendo o scroll aleatório no Twitter - mantenho minha recusa em chamar de X – encontrei esse tuíte em um perfil nomeado Obtemperar: “𝗣𝗲𝗿𝘁𝗼 𝗱´𝗢 𝗔𝗱𝘃𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗱𝗼 𝗞𝗮𝗿𝗹𝗲𝗻𝗼 𝗕𝗼𝗰𝗮𝗿𝗿𝗼, 𝘁𝗼𝗱𝗮 𝗮 𝗮𝘁𝘂𝗮𝗹 𝗹𝗶𝘁𝗲𝗿𝗮𝘁𝘂𝗿𝗮 𝗯𝗿𝗮𝘀𝗶𝗹𝗲𝗶𝗿𝗮 𝗽𝗮𝗿𝗲𝗰𝗲 𝘂𝗺 𝗧𝗖𝗖.” A ironia fresca e o sarcasmo da frase chamaram minha atenção. O nome suigeneris do autor também. Eu nunca havia ouvido falar em Karleno Bocarro nem em nenhuma de suas obras. Com um clique na loja da Amazon encontrei o livro em preço promocional e sem qualquer outra informação decidi comprá-lo. Depois da compra fiz uma busca rápida e descobri que Bocarro é filósofo e historiador pela Universidade de Humboldt em Berlin. Bem, pensei, há esperança. O livro chegou em menos de 24 horas (é cada vez mais impressionante a logística da Amazon) e li o primeiro capítulo para ver em que senda estava me aventurando. Gostei do que li. Como estou atravessando a releitura da Montanha Mágica de Thomas Mann, resolvi utilizar o livro de Bocarro nos intervalos dos discursos dialéticos entre Setembrini e Nafta para o diletante Hans Castorp (considero essencial ler vários livros ao mesmo tempo, a fruição parece ser alargada). Veredito: o livro de Bocarro é bom, muito bom. Vamos a algumas considerações sobre ele. Uma parte importante do romance brasileiro vem sendo atravessada por procedimentos de autobiografia e autoficção, pela centralidade das “escritas de si” (inclusive quando o texto é ficcional, mas sinaliza pacto autobiográfico por paratextos e estratégias de enunciação). Talvez a culpa seja de Knaussgard e Annie Ernaux. Mas divago. Há também uma vertente forte (e de enorme sucesso comercial) que articula memória, corpo e heranças do passado como eixo de conflito e de reposicionamento do sujeito, frequentemente mobilizando vocabulário e problemas associados aos estudos decoloniais. Bocarro – em paralelo ao que chamarei de romance mainstream brasileiro contemporâneo – situa-se com um texto de feição alegórico-apocalíptica (urbana, paranoica e moral), mais próximo da linhagem distópica e anti-realista e do romance de ideias. O Advento opera num regime em que o social não é primariamente encenado como testemunho identitário nem como '𝘱𝘢𝘤𝘵𝘰 𝘥𝘰 𝘦𝘶', mas como clima metafísico-político: mal difuso, instituições corroídas, pressões do presente, angústia existencial e uma subjetividade que lê o mundo sob suspeita e saturação (aqui o centro estilístico é a atmosfera e a moralização do espaço, não a autorrepresentação.) O resultado é uma prosa que alterna blocos reflexivos e cena dialogal com bastante fala direta, o que reforça a sensação de choque de registros e de “montagem nervosa” que me lembraram alguns procedimentos de Pynchon (falo mais disso adiante). A lógica de Bocarro conversa com o uso do pesadelo (às vezes futurizado, às vezes deslocado) para denunciar o presente, com tendência a finais e visões sem promessa de recomposição e com insistência no corpo e no mal-estar como eixos de sentido. A diferença é que, em vez de especulação tecnológica ou worldbuilding e enciclopedismo - como em Pynchon - o romance parece preferir uma distopia teológica-existencial: o apocalipse como forma de percepção e linguagem. O contraste não precisa ser lido como “contra” a literatura identitária e a decolonial, mas como uma escolha de mediação estética: Bocarro universaliza (às vezes até o limite do totalizante) a experiência histórica em figuras do mal, da noite, do destino, da corrupção e da angústia. Eu colocaria O Avento mais perto do romance que reativa o trágico político, o delírio conspiratório e a alegoria urbana. Isso o torna, paradoxalmente, “menos mainstream”, mas bastante contemporâneo: ele parece responder ao mesmo presente, mas por uma máquina formal diferente — não a do relato identitário, e sim a da paranoia moral e da antecipação do esfacelamento e da destruição. O texto d´O Advento revela uma ambição literária alta, deliberadamente afastada da prosa funcional ou minimalista. O autor trabalha com uma escrita densificada, de frases longas, em que a observação social, o comentário psicológico e a imagem poética coexistem no mesmo período. Há clara aposta numa prosa de extração ensaística, herdeira tanto do romance psicológico moderno quanto de uma tradição latino-americana de crítica social incorporada à narrativa (pode-se pensar, em registro distinto, em Vargas Llosa, Sabato ou mesmo um Thomas Mann tropicalizado). O texto sabe que quer ser literatura e não teme o excesso controlado. A dicção é elevada, mas não arcaizante, com preferência por substantivos abstratos e adjetivação de carga simbólica. Há dois campos lexicais recorrentes e bem articulados: um corporal/sensorial e outro moral/existencial/político. Essa justaposição é uma força do texto: o corpo não aparece como mero cenário, mas como interface entre o mal-estar íntimo e a decomposição social. O léxico constrói uma atmosfera coerente de ruína, ameaça e clausura. O autor demonstra habilidade na criação de imagens estruturantes do clima narrativo. Elas são ambiciosas, densas e pensadas para ecoar além da frase, criando um campo simbólico persistente. Em alguns momentos, a metaforização se aproxima do limite da saturação, sobretudo quando múltiplas imagens competem na mesma frase: “escorrendo das mesas como rasuras derretidas de um longo passado de frustrações”, por exemplo, é potente, mas excessivamente autoconsciente. O leitor atento percebe o gesto literário. Isso não é um defeito em si — mas exige ritmo e parcimônia estratégica ao longo do romance. A sintaxe privilegia períodos longos, reflexivos, com intercalações psicológicas. O narrador frequentemente se aproxima do fluxo de consciência, sobretudo nos trechos de imaginação e culpa. A voz narrativa é claramente adulta, culta, interpretativa. Não se trata de uma voz transparente ou neutra; ela interpreta o mundo antes mesmo de mostrá-lo. Em certos momentos, o narrador se aproxima perigosamente de um tom sentencioso. Ao optar por essa escrita de forte carga interpretativa, o romance assume riscos claros: a possibilidade de saturação simbólica, a redução da ambiguidade em certos momentos e uma uniformização do ritmo reflexivo. Esses riscos, no entanto, parecem fazer parte do próprio projeto formal, que aposta na persistência do desconforto e na recusa de soluções fáceis. Lido sob essa chave, O Advento se apresenta como uma obra que exige atenção e disponibilidade crítica, interessadas em explorar os limites da consciência individual diante de um mundo percebido como moralmente esgarçado e discursivamente saturado. Trata-se de um romance que não busca conciliação nem síntese, mas que se afirma no atrito entre formas de pensamento, tradições culturais e experiências ordinárias — deixando ao leitor a tarefa de negociar seus próprios caminhos de leitura. Gosto muito disso. A escrita incorpora referências explicitamente nomeadas e de forte valor simbólico — A Bíblia, Kierkegaard, Nietzsche, Shakespeare — que funcionam como atalhos de densidade: comprimem uma biblioteca de sentidos em poucas palavras e reposicionam o drama individual dentro de uma moldura teológico-existencial. O personagem principal, Aderbal Semei, compartilha o nome do benjamita que amaldiçoou o rei Davi e foi posteriormente executado por Salomão e aparece nos livros de Samuel e Reis. Os livros de Isaías e do Apocalipse (esse último principalmente) são referências fundamentais para a compreensão do texto: suas forças são visíveis nos trechos que exibem as cidades (São Luís e São Paulo) como sintoma; a política como palco de impotência; o corpo como índice de mal-estar, reforçados por um vocabulário onde o mal, a verdade e o absoluto se encontram. Talvez eu esteja delirando mas percebi nos procedimentos de escrita uma familiaridade com Thomas Pynchon. Sem jamais aderir ao humor entrópico ou à exuberância maximalista de Pynchon, O Advento compartilha com ele um regime de alternância narrativa marcado pela circulação paranoica dos discursos, pela instabilidade dos ambientes e por uma sensação difusa de totalidade opaca que atravessa o íntimo, o político e o religioso. Ah! mas sobre o que mesmo é o romance? De forma muito simplificada o enredo apresenta o anti-heroi Aderbal Semei, maranhense de Sâo Luís, professor de História, de mudança para São Paulo em busca da concretização de um amor. Lá “objetos em desarranjo parecem vaticinar-lhe pragas quase míticas. Aka Laurência, a mulher que o amou, talvez o tenha abandonado e levado consigo o discernimento que ao menos permitiria a Semei acautelar-se quanto às linhagens de demônios que insistentemente cerram seus caminhos.” (esse trecho está na apresentação do livro feita pela Editora Sator). Entre esses 'demônios' há um personagem satírico-luciferiano chamado Demis Margote. Margote é a figura mais espantosa e surpreendente do romance além de ser o código para a compreensão de seu sentido. O livro atravessa temas pesados como compulsão sexual, abuso sexual infantil, pedofilia, magia negra e a corrupção política maranhense. É um prato cheio (perdão pelo clichê). O Advento, enfim, se inscreve numa tradição do romance que recusa a transparência, aposta no peso da frase e assume o custo de uma leitura exigente mas sempre fluida. O estilo revela um autor consciente de sua voz, com repertório simbólico sólido e clara intenção estética. Não é uma prosa que busca agradar. E isso, hoje, já é uma posição tanto literária quanto estética muito relevante.
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Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz@Murilo_Poeta·
Presentes de aniversário! Obrigado, Marcelo Franco e Fabrício Tavares de Moraes.
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Mariel Reis
Mariel Reis@marielreis·
Nesse segundo semestre, a @EditoraSator lançará Uma queda no ar. O material foi todo depositado nas mãos de @posmilenarismo. A orelha foi escrita pelo escritor Carlos Eduardo de Magalhães e a contracapa pela talentosa Fal Azevedo juntamente com dois rapazes misteriosos. Aguardem.
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Rodrigo Duarte Garcia
Rodrigo Duarte Garcia@rodrigosdgarcia·
Livrinho excelente — li hoje — com trechos selecionados dos diários de Adonias Filho, falando de Maupassant, Wassermann, a timidez protetora de Kafka, o romance Católico, Faulkner, Defoe como pedagogo, Ibsen, Rilke e a morte. Bem bom. Reeditado agora pela @EditoraSator.
Rodrigo Duarte Garcia tweet mediaRodrigo Duarte Garcia tweet media
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Marquês de Silverio
Marquês de Silverio@camaradatrabuco·
Acabo de ler “E bem quisera que já estivesse em chamas”, de Fabrício Tavares, publicado pela @EditoraSator. Sou suspeito p/ falar, pois tive acesso a alguns contos antes da publicação, mas afirmo sem titubiar: ñ há nada semelhante a este livro na literatura nacional contemporânea
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