Αntonio Nogueira Leite@al_antdp
Num mundo fraturado pela rivalidade sino-americana, a Europa encontra-se numa encruzilhada existencial. Como recentemente escreveu David Marsh (no livro Can Europe Survive? The Story of a Continent in a Fractured World), o futuro europeu terá de ser estruturadoem torno dos grandes desafios da atualidade,partindo da posição em que a União Europeia (UE) se foi colocando ao longo das duas últimas décadas, não tendo sido capaz de completar o mercado único de bens e serviços, tendo permitido o aumento das regulamentações intrusivas de Bruxelas que asfixiam as e investidores, e tendo mostrado ainda uma enorme dificuldade de resposta atempada aos desafios de um Mundo que abandonou a velha ordem multilateral assente no primado do direito internacional.
Economicamente, a UE e os Estados-membrosvão ter de mudar de políticas. A UE é um bloco muito dependente do exterior em áreas cruciais: importa mais de 80% da tecnologia digital e depende de poucos fornecedores para materiais críticos. As empresas europeias pagam eletricidade duas a três vezes mais cara do que nos EUA ou na China, e têm vindo a atrasar-sedramaticamente na inovação mais disruptiva. Por outro lado, como nota Marsh e já referiu Draghi, aunião monetária sem avanços na união política e maior união orçamental pode não resistir às provações que irá sofrendo nos próximos anos, ainda por cima num contexto de fraco crescimento e incapacidade em fazer avançar as reformas que se impõem.
Geopoliticamente, como podemos constatar nos sucessivos desafios que temos enfrentado desde 2022, a Europa desliza para a irrelevância, revelando dificuldade em definir estratégia própria, com tempos de decisão impossíveis e a prossecução de objetivos por vezes contraditórios. Claro que a desadaptação da arquitetura da União ao momento atual, permitindo nomeadamente o bloqueio de infiltrados de blocos adversários, a limitação de muitos dos atuais líderes, incapazes de tomar as medidas difíceis que se impõem, quer no plano nacional quer no da União, não têm ajudado. A Comissão onde, salvo poucas exceções, pontificam políticos ainda mais fracos, não consegue ajudar o Conselho a gizar e trilhar os caminhos que se impõem, e está cada vez mais refém da sua própria burocracia.
Neste contexto é incompreensível como é que não são visíveis sequer os trabalhos preparatórios de uma nova arquitetura na União, que terá de permitir várias velocidades de integração, com crescente peso de decisões por maioria e com objetivos claros e escrutináveis. A Europa pode sobreviver, e até reganhar alguma da sua antiga preponderância, mas para tal terá de decidir que está disposta a pagar o preço. Sem decisões, sem vontade, sem coragem, corre um sério risco de desagregação.