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É difícil não reconhecer uma coisa: a família Bolsonaro talvez seja a que melhor compreendeu o brasileiro do século XXI.
E há uma ironia quase literária nisso. O brasileiro que hoje passa horas por dia nas redes sociais é fruto do mesmo país que estabilizou a moeda, expandiu o crédito e colocou milhões de pessoas no mercado de consumo. O celular parcelado em doze vezes sem juros e o Bolsa Família fizeram mais pela construção do eleitor bolsonarista digital do que qualquer reunião do Instituto Liberal. O sujeito que passa a tarde compartilhando vídeo de Flávio Bolsonaro foi, muitas vezes, empurrado para dentro da internet pelo próprio modelo que o PT ajudou a construir.
Flávio não realizou nenhum milagre diplomático. Washington não acordou numa manhã e descobriu que existe narcotráfico no Brasil porque um senador brasileiro apareceu por lá. A CIA provavelmente sabe mais sobre o PCC do que a ABIN. A MI6 sabe. O Mossad sabe. Pequim sabe. O mundo inteiro sabe que o Brasil se tornou uma peça central nas rotas globais da cocaína. O que mudou não foi o conhecimento. Foi a comunicação.
E comunicação é justamente onde os Bolsonaro vivem.
Não porque sejam brilhantes. Não porque sejam estrategistas sofisticados. Justamente o contrário. Há algo de intuitivo e quase instintivo no modo como operam. Eles compreendem o eleitor da mesma forma que um apresentador popular compreende sua plateia. Sabem que representação vale mais do que substância. Sabem que, para uma parte enorme do público, parecer lutar importa mais do que efetivamente resolver.
É política de várzea. Mas várzea também ganha campeonato.
Ao colocar PCC e Comando Vermelho no centro das manchetes, Flávio não mudou a política externa americana. Mudou o assunto da conversa brasileira. E isso é muito mais relevante.
Porque existe uma diferença entre os dramas que o brasileiro suporta e aqueles que o revoltam.
A inflação irrita. A dívida angustia. O desemprego humilha. Uma pandemia assusta. Mas tudo isso ainda pode ser interpretado como azar, crise, destino ou incompetência.
Já o sujeito que toma um tiro voltando para casa produz outro sentimento.
Morrer de fome é uma tragédia. Morrer de doença é uma tragédia. Morrer porque uma facção decidiu controlar um território é uma afronta.
E é aí que mora a hérnia de disco do PT.
O calcanhar de Aquiles talvez seja a economia artificialmente sustentada por números que brigam diariamente com o carrinho de supermercado. Todo mundo vê os preços. Todo mundo vê as dívidas. Todo mundo vê o dinheiro evaporar antes do fim do mês.
Mas o tema que realmente desorganiza a esquerda brasileira é segurança pública.
Porque existe uma tolerância histórica do brasileiro com quase tudo. Com corrupção, inclusive. Há quem ache que todos roubam. Há quem conclua que a diferença está apenas no tamanho do escândalo.
Mas o tráfico não pede essa licença moral.
O brasileiro pode relativizar muita coisa. O que ele tem dificuldade de relativizar é o homem armado controlando a rua onde seu filho passa.
Os Bolsonaro entenderam isso antes dos outros.
Não criaram o problema. Não descobriram o problema. Não resolveram o problema.
Mas encontraram exatamente a ferida em que dói tocar.

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