
Edson Santy
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Na quarta-feira, finalmente raspei o meu cabelo. Eu estava adiando desde o dia anterior. Adiando, adiando, adiando. Mas não teve jeito. Eu já tinha perdido quase 70% dele. Comprei uma maquininha para a minha filha raspar, porque nós tínhamos combinado que seria assim. Quando ela chegou, passei o dia esperando a hora. Trabalhei o máximo que consegui, avisei as pessoas que precisava avisar, me exercitei, fiz o jantar e sentei à mesa com meu marido e minha filha. Enquanto jantava, pensei na vida. Na vida das pessoas, na minha vida e em toda a minha história. Depois, fomos nós três para o banheiro. Colocamos uma caixinha de som, começamos a ouvir música e eles ajustaram a maquininha. Quando minha filha começou a raspar o meu cabelo, começou a tocar “Apesar de Você”, do Chico Buarque. Eu já estava chorando, mas naquele momento a música fez todo sentido: amanhã será outro dia. Chorei muito. Doía demais. Quando a música terminou, ela também tinha acabado de passar a máquina na minha cabeça. Então olhei para trás e vi minha filha cortando o próprio cabelo, aquele cabelo enorme, que chegava quase até a bunda. Na mesma hora, eu esqueci completamente que existiam a minha cabeça e o meu cabelo. Só conseguia pensar: meu Deus, essa menina é maluca. Minha filha não tem juízo. Como um cabelo desse tamanho vai crescer novamente? Ela me contou que já tinha falado com a família inteira. Todo mundo sabia. Só o meu marido não sabia que ela também rasparia o cabelo. Era uma decisão dela. Foi impressionante o que aconteceu comigo naquele momento. Nunca ninguém tinha feito um gesto assim por mim. Minha filha tomou para si todas as dores que eu estava sentindo e colocou tudo no próprio cabelo. Eu só conseguia pensar em como consolá-la, mas ela não queria ser consolada. Ela estava inteira e certa da decisão que tinha tomado. Nós nos olhamos e descobrimos, mais uma vez, o quanto somos parecidas. E também descobrimos que somos muito bonitas sem cabelo. Nós somos lindas. Ela é linda sem cabelo. Eu sou linda sem cabelo. Ali eu entendi que a vida é muito maior do que muita coisa. É muito maior do que o cabelo. Eu continuo aqui e vou continuar aqui, porque eu sou eu de qualquer jeito. Minha filha também. Nada que mude por fora é capaz de apagar quem somos por dentro. Depois, quando entrei no banho, parece que toda a lucidez do mundo caiu sobre mim. Foi como se eu tivesse vivido uma vida inteira e, naquele instante, ela tivesse terminado. Como se tudo o que eu precisava pagar já tivesse sido pago. Todos os meus karmas, todas as minhas dívidas com a vida, tudo. E minha filha atravessou isso comigo. Hoje eu me sinto zerada. Como se tivesse recebido a oportunidade de começar novamente. Eu achei que abrir mão do meu cabelo teria um custo insuportável. Mas descobri que a vida é muito maior do que aquilo que perdemos. A gente não deixa de ser quem é porque alguma coisa mudou no nosso corpo. A gente é o que é por dentro. Na quarta-feira, eu renasci. E, quando esse tratamento terminar, eu não vou apenas voltar a viver. Eu vou viver uma vida nova, e o meu jardim vai florescer mais uma vez.















