Chris | Diversidade Nerd@chrisgonzatti
Tem vários exemplos, inclusive no circuito mainstream e fora dele. A cultura pop heterossexual sempre contou histórias em que alguém considerado “fora do padrão” se envolve com alguém “dentro do padrão”.
No cinema, você vê o cara desajeitado ou nerd ficando com a mulher mais desejada em filmes como Ligeiramente Grávidos, Hitch - Conselheiro Amoroso (onde o cliente gordo e atrapalhado se envolve com a supermodelo), Um Lugar Chamado Notting Hill e Não Posso Comprar Meu Amor.
Nas séries, isso é praticamente a regra de ouro das sitcoms. Temos o nerd e a vizinha padrão em The Big Bang Theory (Leonard e Penny), além de todo um tropo televisivo de maridos gordos e "fora do padrão" casados com mulheres muito atraentes, como em The King of Queens, Parks and Recreation (o Jerry) e até nas animações como Os Simpsons e Uma Família da Pesada. Nos quadrinhos, o próprio Homem-Aranha original começa como o nerd excluído e alvo de bullying que acaba namorando as duas mulheres mais lindas e cobiçadas (Gwen Stacy e Mary Jane). Fora do circuito mais óbvio, uma série britânica incrível é My Mad Fat Diary, onde a protagonista (uma garota gorda e com problemas reais de autoestima) se envolve com o galã da turma sem que ela precise emagrecer para isso.
Outro ponto crucial do que eu escrevi é a expressão “pessoas lidas (e construídas) como fora do padrão”. O “construídas” está ali justamente porque o cinema adora fabricar esse “fora do padrão” de forma artificial e até problemática. Em O Amor é Cego, por exemplo, o enredo gira em torno de um homem que passa a enxergar a essência de uma mulher gorda, mas na vida real o filme usa uma atriz magra com uma roupa de enchimento ("fatsuit") para construir essa imagem.
Isso que eu nem vou entrar nas novelas! Mas com certeza tu consegue lembrar de casais que seguem essa ideia em alguma novela.
É lógico que não temos tanta representatividade real quando a maioria das obras foca no personagem "nerd" que, na prática, é um ator ou atriz com beleza hegemônica que está apenas "fantasiado" de feio com alguns códigos visuais manjados: óculos, aparelho de dente, cabelo desgrenhado e roupa larga. Depois, o personagem passa por um "makeover" (uma transformação) e o padrão escondido é revelado. Isso aparece de forma gritante em O Diário da Princesa, Ela é Demais, Betty, a Feia e As Patricinhas de Beverly Hills. É um padrão disfarçado, construído narrativamente só para depois ser “corrigido”.
E no fim das contas, vale lembrar do ponto central da minha publicação: é ficção. O audiovisual heterossexual sempre viveu de fantasias românticas improváveis. A gente aceita tranquilamente vampiro namorando humana em Crepúsculo (mais de uma vez), garota se apaixonando por monstro em A Bela e a Fera, bilionário se apaixonando por estudante, sereia querendo casar com príncipe...
Se a cultura pop vive de fabulações imaginativas, não há porquê tanto deboche e fiscalização de "realismo" quando a história mostra, por exemplo, um menino gordo se envolvendo com um homem padrão