JD Paes Landim retweetledi

O que parece festa, pode ser crime.
A matéria da Folha de S.Paulo sobre o ex-banqueiro Vorcaro ilustra com precisão algo que venho defendendo há décadas: a corrupção raramente se apresenta com o rosto que esperamos. Ela chega sorrindo, entre champanhe e jatinhos, envolvida na sedução que disfarça o que na essência é um ato de compra.
Oferecer companhia feminina (modelos transportadas em aeronaves particulares, hospedadas em hotéis cinco estrelas, disponibilizadas a políticos e agentes públicos) não é evento social. É propina. A moeda é diferente, mas a lógica é idêntica: criar vínculos de dependência, cumplicidade e silêncio. Quem aceita o favor, aceita também o preço que virá depois.
Investigar quem participou dessas "festas" não é devassidão investigativa. É dever institucional. Se entre os convidados há agentes públicos com relação próxima ao negócio do banqueiro (contratos, autorizações regulatórias, decisões administrativas) a pergunta que precisa ser feita é inevitável: havia contrapartida? Qual foi o preço do convite?
O aliciamento por benefícios sexuais é uma das ferramentas mais antigas e eficazes de captura de poder. Gera vergonha, e vergonha gera lealdade forçada. O político que aceitou o convite sabe que está exposto. E quem o expôs, sabe que pode cobrar.
Para o mundo corporativo, o recado é igualmente direto: esse tipo de conduta destrói valor. Não existe mais espaço protegido. A tecnologia de hoje: mensagens, metadados, imagens, rastreamento financeiro — torna o passado recuperável. O que parecia discreto em 2018 ou 2019 pode estar sendo reconstituído agora, por uma CPI, por uma força-tarefa, por um jornalista com acesso a dados vazados. O executivo ou empresário que acredita que esses episódios ficaram enterrados está apostando em uma sorte que o tempo consome.
Compliance não é burocracia. É proteção. E começa por entender que ambientes onde se misturam poder, dinheiro e favores sexuais são, por definição, ambientes de risco, não apenas moral, mas jurídico e reputacional.
Tenho dedicado minha carreira a entender como esquemas de corrupção se estruturam, como penetram instituições e como podem ser desmantelados. O caso Vorcaro, assim como tantos outros que examinei ao longo de três décadas, confirma uma constante: a corrupção sempre deixa rastros. A questão não é se serão encontrados, mas quando.
MARCELO BRETAS
*Magistrado federal por 28 anos | Combate à Corrupção, Compliance e Governança*
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