⭑— ᴊᴜʟᴇꜱ ⚕ ᵈᵉᶠᵉⁱᵗᵒ ᵃᵈᵛᵉʳˢᵒ ֶָ֢ ᐟ@defeitoadverso
Vou até me sentar pra responder isso 👩🏻🏫
Obs.: ficou muito grande, mas eu acho que é um dos melhores textos que já escrevi. Levou horas. Se puderem, ❤️💬🔄
Quero começar dizendo que nenhuma especialidade é intrinsecamente fácil ou difícil. É uma questão de habilidade e afinidade.
Eu tive colegas que queriam seguir pela área cirúrgica por exemplo e que diziam abertamente que o dia que tivessem que ajudar um paciente psiquiátrico em plantão de porta tentariam encaminhar porque não têm habilidade, nem interesse e em alguns casos têm até aversão a esse tipo de quadro. É um direito deles.
Eles vão ser cirurgiões bons ou ruins baseado exclusivamente nisso? Não há como saber. Mas sabemos que não seriam bons psiquiatras nem se a vida deles dependesse disso. E a melhor parte é que reconhecem suas limitações evitando prejuízos aos pacientes ao não se embrenhar em matas que não conhecem ou dominam.
Isso é muito mais válido que fingir dominar uma área, realizar uma conduta sem embasamento e prejudicar o paciente por orgulho ou ego – o que é um comportamento extremamente preocupante e comum.
Isso é ser responsável e ético.
Doenças orgânicas/físicas/aparentes possuem "facilitadores" como sinais, exames e marcadores mais objetivos para o diagnóstico. Os critérios de especialidades subjetivas são... Bem, são mais subjetivos.
Há os critérios do DSM baseados em evidências, bem estabelecidos, constantemente sendo estudados e atualizados. Porém identificar depende da habilidade do psiquiatra e como somos humanos podemos falhar pode demorar.
É importante frisar que mesmo nas áreas cirúrgicas ocorre a necessidade de uma laparotomia exploratória, por exemplo, em que não se consegue identificar o problema apenas com exames de imagem e laboratório. E isso é rotina. Abre o paciente, mexe, mexe, não acha nada. Volta pra internação ou UTI, piora. Abre, mexe, mexe de novo. Às vezes acha, às vezes precisa dar uma notícia triste.
Muitos julgam áreas cirúrgicas como mais resolutivas. Isso é um enorme debate. Porque, do meu ponto de vista pessoal, se a resolutividade referida perpassa pelo óbito como "resultado", então talvez o que o paciente precise não seja pura e simples "resolutividade". Talvez ele precise muito mais de alívio, autonomia e dignidade do que ter que escolher entre viver querendo morrer ou morrer querendo viver.
Sentar o dia todo numa cadeira com o cérebro a mil é cansativo é difícil. Cirurgião não fica só em pé operando o dia todo. Todos têm – ou deveriam ter – rotina de dedicação ao estudo teórico, revisões e atualizações que só pode ser feito sentando e estudando.
Das dificuldades subjetivas e não-tão-subjetivas da Psiquiatria...
Pacientes psiquiátricos são imprevisíveis e bem menos confiáveis que outros até pra relatar sobre si. Geralmente um paciente com dor física diz exatamente onde dói, como dói, desde quando dói. Muitos psiquiátricos não conseguem. E às vezes nem com acompanhante conseguimos precisão da informação.
Eu poderia escrever um livro sobre as particularidades da psiquiatria, sobre os pesos e dificuldades. Mas não convém.
Convém, no entanto, responder sobre eu querer ser psiquiatra por ter "problema mental". Como boa parte dos psiquiatras e médicos em geral – afinal somos todos humanos e também adoecemos.
A vivência de uma doença ou transtorno é um ensinamento muito profundo que capítulos de livros e artigos científicos não conseguem – e nem se propõem - a repassar. Isso é notório na satisfação do paciente e no resultado final. Claro que a boa intenção sozinha não basta, é preciso aprofundamento técnico e teórico.
Há um famoso conceito sobre o "MÉDICO FERIDO".
O termo vem da mitologia grega sobre a tragédia de Quíron (uma deidade que é professor e médico). E conta que Quíron durante uma batalha é acertado por uma flecha envenenada atirada por Hércules, seu amigo.
Quíron, por ser imortal, não pode morrer pelo ferimento. O veneno, por ser altamente, letal não permite que ele se cure. Isso leva Quíron a viver o resto de sua vida em dor agonizante.
Ao conhecer tal dor ele dedica o resto de sua existência ao alívio das dores alheias. Ao fim, a dor é tão intensa que Quíron abre mão da imortalidade para escapar da dor incapacitante. E assim, ele salva Prometeu e encontra paz.
A tragédia de Quíron é uma analogia importante para entendermos que muitas vezes só quem passou pelo que passamos terá dimensão do tamanho do nosso problema e que até o exercício empático de se colocar no lugar do outro possui um limite: ver não é saber, imaginar não é sentir. E por sentir na pele, um profissional pode ser mais entusiasmado e dedicado a trazer alívio e cura.
Atrelado a isso, há forte correlação entre escolhas de especialidades médicas baseadas em vivência pessoal de cada profissional. Tudo que fazemos, fazemos por um motivo. Até mesmo as atitudes mais "frias e calculistas" derivam de algo que vive em nossa psiquê e que queremos atender.
Alguém que cuidou de um parente com Alzheimer tende a se especializar nisso porque tenta curar uma ferida gerada numa época em que não tinha conhecimento ou capacidade de ajudar a pessoa amada.
Em virtude disso, cada paciente com Alzheimer, para esse profissional, pode ser de certa forma o seu parente que não pôde ajudar no passado. Uma nova chance de fazer melhor do que antes. E isso é um excelente motivador.
Eu, como paciente psiquiátrica desde criancinha, acredito que justamente isso se torna atributo favorável a melhores condutas e resultados nos meus futuros pacientes. Acredito que me torna mais compreensiva e insatisfeita.
Insatisfeita porque eu me recuso a me acomodar com a não-melhora, com o não-alívio. E sei que vou ter que aceitar isso em alguns momentos. Mas espero cair na aceitação e inação apenas quando realmente não houver mais possibilidades de fazer o melhor – que não necessariamente se refere a estender a vida a qualquer custo, mas sim à qualidade e dignidade de vida que se pode oferecer.
Como paciente, eu escolheria mil vezes o médico que conhece meu problema de forma pessoal para além do conhecimento técnico e teórico em relação ao que apenas leu livros, artigos e relatos. Não que o segundo seja pior, mas é a minha forma de ver a vida.
Já tentou desabafar com alguém que não tem vivência do que você está falando? Chega a ser frustrante. Mesmo que não haja má intenção do ouvinte, ele possui uma limitação para compreender o que você diz. Quase como se falassem idiomas diferentes e alienígenas um ao outro.
Tudo sobre a psiquiatria me fascina e conversa comigo. Ao meu ver seguir outra área seria jogar fora um grande arcabouço de conhecimento empírico de uma vida inteira lidando com essas questões e que, apesar de não ser o que me qualifica, é o que me diferencia.
E não estou dizendo que médicos sem vivência pessoal dos quadros são inferiores. Também é impossível se viver todas as doenças que nos propomos a tratar. Mas acredito que quem possui a vivência possui um diferencial.
Apesar do tom da pergunta, agradeço por ela pois escrever sobre isso foi muito bom pra mim. Reforçou pra mim mesma a confiança e paixão que tenho pela medicina, pela psiquiatria e pelo ser humano.