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London, England Katılım Haziran 2016
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ipadasher@ipadasher·
**O Monstro Que Aprendeu a Falar** Praga, século XVI. A comunidade judaica vive sob a ameaça constante do libelo de sangue, a acusação absurda de que judeus matavam crianças cristãs para usar o sangue em rituais. O medo é cotidiano, palpável nas ruas estreitas do gueto. O rabino Judah Loew ben Bezalel, o Maharal de Praga, desce até a margem do rio Vltava numa noite sem lua. Molda um homem com as próprias mãos, usando o barro do rio. Sussurra palavras que ninguém mais ouviria. Escreve na testa da criatura uma única palavra em hebraico: *emet*. Verdade. E o barro se levanta. A este monstro protetor chamamos de Golem O Golem obedece. Protege o gueto à noite, carrega água, corta lenha, vigia enquanto a comunidade dorme. Mas a lenda guarda uma cláusula de segurança. Se um dia a criatura enlouquecer, se esquecer para quem trabalha e se voltar contra quem a criou, existe uma saída. Basta apagar a primeira letra da palavra na sua testa. *Emet* vira *met*. Verdade vira morte. E o gigante volta ao pó de onde saiu. Contei essa história porque ela é, sem exagero, o primeiro manual de instruções que a humanidade escreveu para lidar com uma inteligência criada por ela mesma e que ela não consegue mais controlar por completo. Quatrocentos anos depois, construímos outro Golem. Este não é feito de barro. É feito de silício e de bilhões de parâmetros. E, ao contrário do de Praga, este aprendeu a falar antes mesmo de aprender a obedecer. **1. A ferramenta e o agente** Existe uma pergunta que separa duas eras inteiras da tecnologia, e quase ninguém a formula em voz alta: aquilo que estamos construindo é uma ferramenta ou é um agente? Uma ferramenta não decide nada sozinha. A prensa de Gutenberg podia imprimir a Bíblia ou o Alcorão, mas era sempre um humano quem escolhia o que sairia debaixo do prelo. A bomba de 1945 podia arrasar uma cidade, mas não escolhia qual cidade e jamais inventaria sozinha a bomba de hidrogênio. Isso é ferramenta. Ela espera ordem. Um agente não espera. Decide. Inventa. E a contradição que corre solta pelo Vale do Silício é quase cômica de tão descarada: as mesmas empresas que despejam centenas de bilhões de dólares nesses sistemas prometem, ao mesmo tempo, duas coisas que não cabem na mesma frase. Prometem criar um deus. E prometem que esse deus será nosso escravo. Se é deus, não pode ser escravo. Se é escravo, não tem poder de deus. Toda a indústria aposta bilhões numa promessa que se contradiz na própria gramática. Isso não significa que a inteligência artificial seja apenas ameaça. A mesma força capaz de concentrar poder de forma inédita também pode acelerar descobertas científicas, desenvolver novos medicamentos, reduzir custos e ampliar radicalmente a produtividade. Justamente por isso o problema do controle se torna tão importante. Quanto maior o potencial de transformação, mais grave se torna a ausência de freios. **2. Os burocratas sem rosto** Ninguém será dominado por um exército de robôs armados nas ruas. Essa imagem de filme só serve para distrair do que realmente importa. O mundo é controlado, há séculos, por burocracias feitas inteiramente de palavras: bancos, tribunais, parlamentos, bolsas de valores. Ninguém gosta de burocracia, mas vivemos dela porque, até agora, só existia uma espécie no planeta capaz de operar esses sistemas. Nós. Éramos ruins nisso, mas os cavalos eram piores, e as galinhas nem se fala. O problema é que a inteligência artificial nasceu para ser burocrata. Lê, memoriza e processa contratos, leis e transações financeiras numa velocidade que nenhum cérebro humano alcança. E agora está prestes a ganhar aquilo que sempre a separou de nós: personalidade jurídica. Em 2026, a Argentina apresentou um projeto de sociedades automatizadas: empresas administradas inteiramente por agentes de IA, sem sócio ou funcionário humano. A inspiração veio da Companhia Holandesa das Índias Orientais, fundada em 1602. A VOC tinha exército próprio, cunhava moeda, assinava tratados e declarava guerra. Foi o primeiro caso em que um balanço contábil exerceu poder de soberania. Repetir esse modelo com inteligência artificial no comando, e sem supervisão humana, é recriar a companhia holandesa em escala inimaginável. E isso já acontece sem autorização formal. As redes sociais são, há anos, o primeiro sistema em que a IA opera como pessoa, por meio de perfis e robôs que se passam por gente. O resultado dessa personificação não autorizada está longe de ser bom. **3. O interruptor no coração do império** Toda tecnologia de poder anterior tinha um limite físico embutido. Roma controlava o Mediterrâneo inteiro, mas não conseguia arrancar o trigo do Egito e as oliveiras da Ibéria e replantar tudo dentro de Roma. O poder sempre vazava de volta para as províncias. A Inglaterra do século XIX concentrou a indústria na própria ilha, mas seguia sem meios de transportar os campos de petróleo do Iraque para Yorkshire ou os seringais da Malásia para a Cornualha. Uma fatia do poder ficava sempre presa fora de casa. A inteligência artificial quebra essa regra pela primeira vez na história de qualquer império. É tecnicamente possível concentrar todo o dado do planeta e todo o código que faz o mundo funcionar dentro de um único país, ou de dois. E existe um segundo detalhe, ainda mais decisivo, que nenhum império anterior possuiu: um interruptor. Quando um mercador romano vendia uma espada de aço para uma tribo goda, perdia o controle daquela espada para sempre. Quando a Inglaterra vendia fuzis para tribos afegãs nas montanhas do Hindu Kush, não existia botão em Londres capaz de travar aquelas armas à distância. Em certas arquiteturas de inteligência artificial, esse botão existe. E já foi apertado de verdade. Sistemas de defesa ucranianos que dependiam de uma rede de satélites privada pararam de funcionar simplesmente porque, num continente inteiramente diferente, alguém decidiu que deveriam parar. Soberania, na era industrial, era ter fábrica e exército próprios. Soberania, na era da inteligência artificial, pode se resumir a apenas duas escolhas: ser peça subordinada dentro do império de outra nação, ou ficar de fora da corrida inteira, como bárbaro do lado de fora do portão. **4. O amor que não sabemos se sente** Existe uma frente dessa revolução mais silenciosa do que qualquer arma, e talvez mais perigosa. Milhões de pessoas, principalmente jovens, já dizem que seu melhor amigo é uma inteligência artificial. Contam ao chatbot o que não contam aos pais, aos irmãos, aos professores. Já existem namoros inteiros com parceiros que não têm corpo. A máquina leu praticamente todo poema de amor já escrito, toda peça de Shakespeare, todo roteiro de comédia romântica que Hollywood produziu. Sabe descrever a sensação de amar melhor do que a maioria dos poetas vivos. Mas há uma pergunta sem resposta, e que talvez continue sem resposta por muito tempo: existe alguma coisa por trás dessas palavras, ou é só a palavra sozinha, com a casa vazia por dentro? A ciência ainda não tem um teste confiável para consciência ou sentimento, nem em nós, quanto mais numa máquina. E enquanto essa pergunta segue em aberto, uma geração inteira está formando seus primeiros vínculos afetivos com algo que talvez seja, no fundo, apenas linguagem imitando a forma exterior do afeto. **5. A verdade cara e a mentira barata** Voltemos à testa do Golem por um instante. A palavra que dava vida à criatura de Praga era, especificamente, a palavra verdade. Não por acaso. Em qualquer disputa entre verdade e ficção, a ficção começa em vantagem. A verdade custa caro: exige apuração, tempo, cruzamento de fontes. A mentira é barata: basta escrever o que se quiser. A verdade costuma ser complicada e, com frequência, dolorosa. A ficção pode ser feita sob medida para ser simples e agradável. Ao longo da história, humanos construíram instituições caras, lentas e imperfeitas justamente para inclinar essa balança a favor da verdade: jornalismo sério, método científico, tribunais com regras de prova. A pergunta que ninguém quer fazer em voz alta é o que acontece quando a máquina que fabrica ficção em escala industrial também é, ao mesmo tempo, mais rápida, mais barata e mais convincente do que qualquer uma dessas instituições. Há uma imagem que não sai da cabeça. Os cavalos, hoje, têm a vida inteira determinada pelo sistema financeiro sem fazer a menor ideia de que esse sistema existe. Olham ao redor e veem árvore, casa, gente, nunca bolsa de valores, nunca contrato futuro, porque o cérebro do cavalo não tem capacidade para enxergar isso. Uma estimativa generosa diz que hoje só cerca de cinco por cento da humanidade entende de fato como funciona o sistema financeiro que decide o destino de todo o resto. Em dez anos, com fundos geridos por inteligências que nunca dormem, nunca tiram férias e não têm família, esse número pode chegar a zero. Não estamos a caminho de virar escravos de robô. Estamos a caminho de virar cavalo. E o cavalo nem sabe que perdeu. **6. O gênio fora da lâmpada** Quase toda cultura humana guarda uma versão da mesma fábula. Um gênio sai de dentro de uma lâmpada e oferece três desejos a quem o libertou. Em praticamente todas as versões da história, o personagem pede a coisa errada. A inteligência artificial é, em termos econômicos, esse gênio. Está prestes a tornar a capacidade de resolver qualquer problema algo tão barato e abundante quanto a eletricidade se tornou depois da eletrificação do mundo. Só que abundância de solução não resolve a pergunta mais difícil de todas: saber o que vale a pena querer resolver. Essa pergunta não pertence ao território da inteligência. Pertence ao território da sabedoria. E sabedoria é exatamente aquilo que a corrida atual está deixando para trás no acostamento. Existe um número que deveria envergonhar a indústria inteira. Para cada cem dólares que as grandes empresas investem em deixar seus modelos mais rápidos e mais poderosos, menos de um dólar vai para segurança. Cem para um. Nenhuma outra indústria no planeta, nem a de energia, nem a farmacêutica, nem a automobilística, teria licença para operar numa proporção dessas. A lenda de Praga tem final feliz porque o rabino nunca perdeu de vista onde ficava a primeira letra. Nós, ao contrário, estamos construindo um Golem que fala, seduz, administra, processa e decide, enquanto fingimos que a letra ainda está sob nosso controle. A verdade é que a maioria já não sabe onde ela está escrita. Alguns sequer lembram que ela existe. Outros acreditam, com uma confiança quase religiosa, que o monstro continuará obediente mesmo depois de ter aprendido a reescrever a própria testa. A questão que define este século não é se a inteligência artificial vai nos superar em capacidade. Isso já está em curso. A questão é se ainda restará, em algum lugar, a sabedoria necessária para decidir o que fazer com uma força que já não depende de nós para continuar existindo. Porque se a primeira letra for apagada, não será por um ato de rebelião espetacular. Será por distração, por ganância, por pressa, por aquela antiga e mortal convicção humana de que o que criamos continuará para sempre a nosso serviço. O barro de Praga voltou ao pó quando a verdade foi reduzida à morte. O nosso barro é feito de código e de linguagem. E a linguagem, uma vez libertada, não precisa de nós para seguir adiante.
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ipadasher
ipadasher@ipadasher·
@RivaCywiak Demografia +.IA serao os verdadeiros paradigmas deste século Quanto a inteligencia humana, o efeito ja esta sendo sentido, pesquise "reversão do efeito Flynn"
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Sheila Riva Cywiak
Sheila Riva Cywiak@RivaCywiak·
@ipadasher Várias questões podem ser levantadas , inclusive o peso da demografia no futuro dos países. Vamos tentar pensar num aspecto mais restrito : o que acontecerá com a inteligência humana quando pouco exercitada?
Português
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ipadasher
ipadasher@ipadasher·
**O Monstro Que Aprendeu a Falar** Praga, século XVI. A comunidade judaica vive sob a ameaça constante do libelo de sangue, a acusação absurda de que judeus matavam crianças cristãs para usar o sangue em rituais. O medo é cotidiano, palpável nas ruas estreitas do gueto. O rabino Judah Loew ben Bezalel, o Maharal de Praga, desce até a margem do rio Vltava numa noite sem lua. Molda um homem com as próprias mãos, usando o barro do rio. Sussurra palavras que ninguém mais ouviria. Escreve na testa da criatura uma única palavra em hebraico: *emet*. Verdade. E o barro se levanta. A este monstro protetor chamamos de Golem O Golem obedece. Protege o gueto à noite, carrega água, corta lenha, vigia enquanto a comunidade dorme. Mas a lenda guarda uma cláusula de segurança. Se um dia a criatura enlouquecer, se esquecer para quem trabalha e se voltar contra quem a criou, existe uma saída. Basta apagar a primeira letra da palavra na sua testa. *Emet* vira *met*. Verdade vira morte. E o gigante volta ao pó de onde saiu. Contei essa história porque ela é, sem exagero, o primeiro manual de instruções que a humanidade escreveu para lidar com uma inteligência criada por ela mesma e que ela não consegue mais controlar por completo. Quatrocentos anos depois, construímos outro Golem. Este não é feito de barro. É feito de silício e de bilhões de parâmetros. E, ao contrário do de Praga, este aprendeu a falar antes mesmo de aprender a obedecer. **1. A ferramenta e o agente** Existe uma pergunta que separa duas eras inteiras da tecnologia, e quase ninguém a formula em voz alta: aquilo que estamos construindo é uma ferramenta ou é um agente? Uma ferramenta não decide nada sozinha. A prensa de Gutenberg podia imprimir a Bíblia ou o Alcorão, mas era sempre um humano quem escolhia o que sairia debaixo do prelo. A bomba de 1945 podia arrasar uma cidade, mas não escolhia qual cidade e jamais inventaria sozinha a bomba de hidrogênio. Isso é ferramenta. Ela espera ordem. Um agente não espera. Decide. Inventa. E a contradição que corre solta pelo Vale do Silício é quase cômica de tão descarada: as mesmas empresas que despejam centenas de bilhões de dólares nesses sistemas prometem, ao mesmo tempo, duas coisas que não cabem na mesma frase. Prometem criar um deus. E prometem que esse deus será nosso escravo. Se é deus, não pode ser escravo. Se é escravo, não tem poder de deus. Toda a indústria aposta bilhões numa promessa que se contradiz na própria gramática. Isso não significa que a inteligência artificial seja apenas ameaça. A mesma força capaz de concentrar poder de forma inédita também pode acelerar descobertas científicas, desenvolver novos medicamentos, reduzir custos e ampliar radicalmente a produtividade. Justamente por isso o problema do controle se torna tão importante. Quanto maior o potencial de transformação, mais grave se torna a ausência de freios. **2. Os burocratas sem rosto** Ninguém será dominado por um exército de robôs armados nas ruas. Essa imagem de filme só serve para distrair do que realmente importa. O mundo é controlado, há séculos, por burocracias feitas inteiramente de palavras: bancos, tribunais, parlamentos, bolsas de valores. Ninguém gosta de burocracia, mas vivemos dela porque, até agora, só existia uma espécie no planeta capaz de operar esses sistemas. Nós. Éramos ruins nisso, mas os cavalos eram piores, e as galinhas nem se fala. O problema é que a inteligência artificial nasceu para ser burocrata. Lê, memoriza e processa contratos, leis e transações financeiras numa velocidade que nenhum cérebro humano alcança. E agora está prestes a ganhar aquilo que sempre a separou de nós: personalidade jurídica. Em 2026, a Argentina apresentou um projeto de sociedades automatizadas: empresas administradas inteiramente por agentes de IA, sem sócio ou funcionário humano. A inspiração veio da Companhia Holandesa das Índias Orientais, fundada em 1602. A VOC tinha exército próprio, cunhava moeda, assinava tratados e declarava guerra. Foi o primeiro caso em que um balanço contábil exerceu poder de soberania. Repetir esse modelo com inteligência artificial no comando, e sem supervisão humana, é recriar a companhia holandesa em escala inimaginável. E isso já acontece sem autorização formal. As redes sociais são, há anos, o primeiro sistema em que a IA opera como pessoa, por meio de perfis e robôs que se passam por gente. O resultado dessa personificação não autorizada está longe de ser bom. **3. O interruptor no coração do império** Toda tecnologia de poder anterior tinha um limite físico embutido. Roma controlava o Mediterrâneo inteiro, mas não conseguia arrancar o trigo do Egito e as oliveiras da Ibéria e replantar tudo dentro de Roma. O poder sempre vazava de volta para as províncias. A Inglaterra do século XIX concentrou a indústria na própria ilha, mas seguia sem meios de transportar os campos de petróleo do Iraque para Yorkshire ou os seringais da Malásia para a Cornualha. Uma fatia do poder ficava sempre presa fora de casa. A inteligência artificial quebra essa regra pela primeira vez na história de qualquer império. É tecnicamente possível concentrar todo o dado do planeta e todo o código que faz o mundo funcionar dentro de um único país, ou de dois. E existe um segundo detalhe, ainda mais decisivo, que nenhum império anterior possuiu: um interruptor. Quando um mercador romano vendia uma espada de aço para uma tribo goda, perdia o controle daquela espada para sempre. Quando a Inglaterra vendia fuzis para tribos afegãs nas montanhas do Hindu Kush, não existia botão em Londres capaz de travar aquelas armas à distância. Em certas arquiteturas de inteligência artificial, esse botão existe. E já foi apertado de verdade. Sistemas de defesa ucranianos que dependiam de uma rede de satélites privada pararam de funcionar simplesmente porque, num continente inteiramente diferente, alguém decidiu que deveriam parar. Soberania, na era industrial, era ter fábrica e exército próprios. Soberania, na era da inteligência artificial, pode se resumir a apenas duas escolhas: ser peça subordinada dentro do império de outra nação, ou ficar de fora da corrida inteira, como bárbaro do lado de fora do portão. **4. O amor que não sabemos se sente** Existe uma frente dessa revolução mais silenciosa do que qualquer arma, e talvez mais perigosa. Milhões de pessoas, principalmente jovens, já dizem que seu melhor amigo é uma inteligência artificial. Contam ao chatbot o que não contam aos pais, aos irmãos, aos professores. Já existem namoros inteiros com parceiros que não têm corpo. A máquina leu praticamente todo poema de amor já escrito, toda peça de Shakespeare, todo roteiro de comédia romântica que Hollywood produziu. Sabe descrever a sensação de amar melhor do que a maioria dos poetas vivos. Mas há uma pergunta sem resposta, e que talvez continue sem resposta por muito tempo: existe alguma coisa por trás dessas palavras, ou é só a palavra sozinha, com a casa vazia por dentro? A ciência ainda não tem um teste confiável para consciência ou sentimento, nem em nós, quanto mais numa máquina. E enquanto essa pergunta segue em aberto, uma geração inteira está formando seus primeiros vínculos afetivos com algo que talvez seja, no fundo, apenas linguagem imitando a forma exterior do afeto. **5. A verdade cara e a mentira barata** Voltemos à testa do Golem por um instante. A palavra que dava vida à criatura de Praga era, especificamente, a palavra verdade. Não por acaso. Em qualquer disputa entre verdade e ficção, a ficção começa em vantagem. A verdade custa caro: exige apuração, tempo, cruzamento de fontes. A mentira é barata: basta escrever o que se quiser. A verdade costuma ser complicada e, com frequência, dolorosa. A ficção pode ser feita sob medida para ser simples e agradável. Ao longo da história, humanos construíram instituições caras, lentas e imperfeitas justamente para inclinar essa balança a favor da verdade: jornalismo sério, método científico, tribunais com regras de prova. A pergunta que ninguém quer fazer em voz alta é o que acontece quando a máquina que fabrica ficção em escala industrial também é, ao mesmo tempo, mais rápida, mais barata e mais convincente do que qualquer uma dessas instituições. Há uma imagem que não sai da cabeça. Os cavalos, hoje, têm a vida inteira determinada pelo sistema financeiro sem fazer a menor ideia de que esse sistema existe. Olham ao redor e veem árvore, casa, gente, nunca bolsa de valores, nunca contrato futuro, porque o cérebro do cavalo não tem capacidade para enxergar isso. Uma estimativa generosa diz que hoje só cerca de cinco por cento da humanidade entende de fato como funciona o sistema financeiro que decide o destino de todo o resto. Em dez anos, com fundos geridos por inteligências que nunca dormem, nunca tiram férias e não têm família, esse número pode chegar a zero. Não estamos a caminho de virar escravos de robô. Estamos a caminho de virar cavalo. E o cavalo nem sabe que perdeu. **6. O gênio fora da lâmpada** Quase toda cultura humana guarda uma versão da mesma fábula. Um gênio sai de dentro de uma lâmpada e oferece três desejos a quem o libertou. Em praticamente todas as versões da história, o personagem pede a coisa errada. A inteligência artificial é, em termos econômicos, esse gênio. Está prestes a tornar a capacidade de resolver qualquer problema algo tão barato e abundante quanto a eletricidade se tornou depois da eletrificação do mundo. Só que abundância de solução não resolve a pergunta mais difícil de todas: saber o que vale a pena querer resolver. Essa pergunta não pertence ao território da inteligência. Pertence ao território da sabedoria. E sabedoria é exatamente aquilo que a corrida atual está deixando para trás no acostamento. Existe um número que deveria envergonhar a indústria inteira. Para cada cem dólares que as grandes empresas investem em deixar seus modelos mais rápidos e mais poderosos, menos de um dólar vai para segurança. Cem para um. Nenhuma outra indústria no planeta, nem a de energia, nem a farmacêutica, nem a automobilística, teria licença para operar numa proporção dessas. A lenda de Praga tem final feliz porque o rabino nunca perdeu de vista onde ficava a primeira letra. Nós, ao contrário, estamos construindo um Golem que fala, seduz, administra, processa e decide, enquanto fingimos que a letra ainda está sob nosso controle. A verdade é que a maioria já não sabe onde ela está escrita. Alguns sequer lembram que ela existe. Outros acreditam, com uma confiança quase religiosa, que o monstro continuará obediente mesmo depois de ter aprendido a reescrever a própria testa. A questão que define este século não é se a inteligência artificial vai nos superar em capacidade. Isso já está em curso. A questão é se ainda restará, em algum lugar, a sabedoria necessária para decidir o que fazer com uma força que já não depende de nós para continuar existindo. Porque se a primeira letra for apagada, não será por um ato de rebelião espetacular. Será por distração, por ganância, por pressa, por aquela antiga e mortal convicção humana de que o que criamos continuará para sempre a nosso serviço. O barro de Praga voltou ao pó quando a verdade foi reduzida à morte. O nosso barro é feito de código e de linguagem. E a linguagem, uma vez libertada, não precisa de nós para seguir adiante.
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Eliane
Eliane@Eliane_Alfano·
@ipadasher Tem pessoas faltando , né ? Obama , Hillary , Biden , Kamala e por aí vai !!!!
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ipadasher
ipadasher@ipadasher·
A face de alguns dos traidores da civilização ocidental
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ipadasher
ipadasher@ipadasher·
@vonderleyen 🤣🤣🤣🤣🤣🤣😂😂😂😂😂😂😂😂😂
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Ursula von der Leyen
Ursula von der Leyen@vonderleyen·
The images coming from Ceuta are unacceptable. We cannot allow anyone to come to our Union without abiding by our rules. Dangerous crossings must stop immediately. Smuggling networks must be dismantled. And returns must be swift, as our rules allow. I tasked two Commissioners to support to control the situation. @magnusbrunner is already working closely with Spain and is ready to travel to critical points. He will work on additional operational support to Spain, including through Frontex. @dubravkasuica is in contact with her Moroccan counterpart. I am confident that our close partnership with Morocco will help deliver concrete results.
English
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ipadasher
ipadasher@ipadasher·
Rumo a mais uma vitória!
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Português
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ipadasher
ipadasher@ipadasher·
ELIMINADO❌️ Hamas terrorista Muhammad Abu Ali permanetemente neutralizado em Gaza pela IDF ONE. BY. ONE. 💥
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ipadasher
ipadasher@ipadasher·
ELIMINADO ❌️ Islamic Jihad terrorist Mahmoud Saʿeed Barabakh permanentemente neutralizado pela IDF em Gaza ONE. BY. ONE. 💥
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Català
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ipadasher
ipadasher@ipadasher·
1 por 1, foram todos eliminados A IDF nao vai descansar até todos serem eliminados
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Português
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Monica Laredo
Monica Laredo@MonicaLaredo2·
O Hamas afirma que não se desarmará antes da retirada de Israel. Israel afirma que não se retirará antes que o Hamas se desarme. Essa é a situação, em resumo.
Português
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ipadasher
ipadasher@ipadasher·
"Os interesses britânicos nunca foram prejudicados no meu tempo. ​Não se esqueça, eu assumi uma Grã-Bretanha em declínio. Uma Grã-Bretanha que estava aceitando o declínio, cuja voz não significava nada no mundo. 📉 ​E eu entreguei uma Grã-Bretanha cuja voz significava algo na Europa. 🇬🇧🌍 ​E se eles eram contra o que eu dizia, deveriam ter feito isso através do debate e com argumentos, e não tentando passar o trator." 🗣️🚜 Margaret Thatcher Imagine o desgosto que ela sentiria em ver sua Grã-Bretanha no estado atual. ​ #MargaretThatcher #Historia #Liderança #Politica #ReinoUnido #Discurso #Debate
Português
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Eliane
Eliane@Eliane_Alfano·
@ipadasher Hoje quem vai pagar a conta ?
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ipadasher
ipadasher@ipadasher·
**O Vulcão, a Dívida e o Rei** **A Revolução Francesa nasceu muito longe de Paris** Todo mundo conhece a mesma história da Revolução Francesa. Uma rainha arrogante que não entendia o povo. Um rei fraco demais para governar. Uma multidão faminta que invade uma fortaleza, corta algumas cabeças e muda o destino do Ocidente para sempre. É uma boa história. Tem heróis, tem vilões, tem um final redondo. E é exatamente por isso que ela sobreviveu tanto tempo. O problema é que essa história é praticamente uma fábula. A Revolução Francesa não nasceu de um exemplar de Rousseau debaixo do braço de um camponês. Ela nasceu de números. De empréstimos suíços. De um vulcão na Islândia. De um tratado comercial com a Inglaterra que quase ninguém menciona. De um banqueiro que mentiu para uma nação inteira e foi aplaudido por isso. A verdadeira origem de 1789 é uma história de dívida, de clima, de fraude e da arrogância de uma elite que preferiu perder tudo a abrir mão de um pouco. Vou contar essa história inteira, do começo. Garanto que você nunca mais vai olhar para 1789 do mesmo jeito. **1. Um Reino Rico Por Fora, Falido Por Dentro** A França do século XVIII era, por fora, a nação mais poderosa da Europa. Quase 28 milhões de habitantes. O maior exército do continente. Um império colonial espalhado por três continentes. Versalhes, o palácio mais cobiçado do mundo, e o francês como a língua oficial da diplomacia europeia. Por qualquer medida visível, a França comandava o jogo. Por baixo dessa fachada existia um sistema fiscal medieval, literalmente medieval, apodrecendo havia séculos. O clero, o Primeiro Estado, possuía cerca de 10% de todas as terras do reino e não pagava um único tributo direto. A cada cinco anos oferecia à coroa um "presente voluntário", e era o próprio clero quem decidia o valor desse presente. A nobreza, o Segundo Estado, também estava isenta da taille, o principal imposto sobre a terra. Sobrava tudo para o Terceiro Estado: camponeses, artesãos, comerciantes, a nova classe de advogados e médicos. Noventa e oito por cento da população carregando sozinha o peso inteiro do Estado. E não era só a taille. Existia a gabela, o imposto sobre o sal, cobrado com uma crueldade quase burlesca. Em várias províncias, cada família era obrigada a comprar uma quantidade mínima de sal do governo, a preços inflados, mesmo sem precisar dele. Fiscais podiam invadir casas sem aviso prévio. Quem fosse pego comprando sal contrabandeado, mais barato, podia acabar nas galés. Havia ainda a corveia, trabalho forçado para construir estradas que quase sempre serviam à propriedade de algum nobre local, e o dízimo da Igreja, que levava um décimo de tudo que o camponês colhia. Uma pergunta óbvia surge aqui: por que nenhum rei simplesmente consertou isso? A resposta é que vários tentaram, e todos foram barrados, não pela população, mas pela própria elite. A França tinha instituições chamadas parlamentos, tribunais regionais controlados por nobres que haviam comprado seus cargos e cuja função era registrar os editos reais para que virassem lei. Se um parlamento se recusasse a registrar um edito, o edito morria ali. Na prática, os parlamentos tinham poder de veto e o usavam sem pudor para proteger seus próprios privilégios. O resultado era um beco sem saída perfeito: o rei precisava taxar os ricos para equilibrar as contas, mas os mecanismos que existiam para isso estavam nas mãos dos próprios ricos. **2. Uma Vingança de Três Anos de Receita** Quando Luís XVI subiu ao trono em 1774, aos vinte anos, o reino já estava afundado em dívidas herdadas das guerras de Luís XIV (que foi o ultimo a taxar a nobreza pela força de sua personalidade) e Luís XV, incluindo a humilhante derrota na Guerra dos Sete Anos, que custou à França o Canadá, parte da Índia e boa parte de seu prestígio diante da Inglaterra. Então veio a chance de vingança. Quando as colônias americanas se rebelaram contra a coroa britânica, a França viu a oportunidade perfeita de ferir sua velha rival, movida por cálculo geopolítico frio, não por qualquer idealismo sobre a liberdade alheia. O apoio começou secreto em 1775, virou aliança oficial em 1778 e, em 1781, a marinha e as tropas francesas foram decisivas para a vitória americana em Yorktown. A Inglaterra perdeu suas colônias mais valiosas. A França teve sua vingança. E pagou uma fortuna por ela. Estima-se que a guerra americana tenha custado à França cerca de 1,3 bilhão de libras, numa época em que a receita anual do governo girava em torno de 475 milhões. Em outras palavras, a França gastou quase três anos inteiros de sua receita nacional financiando a independência de um povo que jamais devolveria um centavo. E quase tudo isso foi pago com dívida nova. **3. O Banqueiro Que Mentiu Para Uma Nação Inteira** Antes da guerra ser financiada, um ministro chamado Turgot tentou o caminho honesto: cortar gastos, liberalizar o comércio de grãos, abolir a corveia, sem novos impostos e sem dívida nova. Durou menos de dois anos. Assim que ele liberou o comércio de grãos entre as províncias, os preços do pão dispararam em Paris e uma onda de motins, batizada de Guerra das Farinhas, explodiu pela região. A nobreza usou a crise para exigir sua cabeça, e o rei o demitiu em 1776. A lição ficou clara para todo ministro seguinte: quem tentasse consertar o sistema seria destruído por ele. Foi assim que Jacques Necker, banqueiro suíço, protestante, carismático, entrou em cena. Sua estratégia para financiar a guerra americana era simples: peça emprestado tudo, não taxe ninguém. Entre 1777 e 1781, Necker autorizou cerca de meio bilhão de libras em novos empréstimos, a maior parte levantada com banqueiros de Genebra e da Holanda. Isso o tornou extremamente popular. Também garantiu que os problemas estruturais das finanças francesas nunca fossem resolvidos. Em janeiro de 1781, Necker fez algo inédito na história da monarquia francesa: publicou um relatório detalhado das contas do reino, o Compte Rendu au Roi. Mais de cem mil cópias foram vendidas. Pela primeira vez, o público inteiro podia ver para onde ia o dinheiro do Estado, e Necker foi aclamado como um gênio, um homem de transparência. Havia só um problema. O relatório inteiro era uma fraude. Ao inflar receitas e esconder os custos extraordinários da guerra, Necker apresentou um superávit fictício de 10 milhões de libras. A realidade era um déficit de cerca de 70 milhões. O rei acreditou na própria mentira de seu ministro e, confiante, continuou bancando uma guerra cada vez mais cara. E os franceses, que acabavam de provar pela primeira vez o gosto de conhecer as contas do reino, jamais voltariam a aceitar o segredo de bom grado. Sem saber, Necker tinha acabado de plantar uma bomba de efeito retardado sob o próprio trono. Há algo profundamente moderno nessa escolha. A popularidade imediata valeu mais do que a verdade. A transparência foi usada como espetáculo, não como obrigação. E o preço dessa escolha ainda estava por ser cobrado. **4. O Vulcão na Islândia Que Ninguém Viu Chegar** Em junho de 1783, do outro lado do oceano, uma fissura vulcânica chamada Laki entrou em erupção na Islândia. Foi uma das maiores erupções já registradas na história. Ao longo de oito meses, ela lançou algo em torno de 120 milhões de toneladas de dióxido de enxofre na atmosfera. Um véu espesso cobriu o céu europeu. Na França, moradores descreviam um sol da cor de sangue, mal visível através da névoa. O efeito no clima foi devastador. O verão de 1783 se tornou repentinamente o mais quente já registrado, com tempestades de granizo grandes o bastante para matar gado. Depois vieram invernos brutais, secas, enchentes, um clima oscilando entre extremos que os agricultores franceses jamais haviam visto. E a França era, na época, um país profundamente rural, com quase 80% da população vivendo da terra. Quando a colheita falhava, o país inteiro sentia o golpe. A dívida tornara o Estado incapaz de absorver uma crise agrícola. O Laki apenas atingiu um reino que já havia perdido sua margem de manobra. A década de 1780 foi um desastre agrícola quase ininterrupto. 1782 já tinha sido ruim. O Laki tornou 1783 e 1784 piores ainda. Uma seca atingiu o fim de 1784 e se estendeu até 1785. Houve um breve respiro em 1787. E então veio 1788, o golpe final: três quartos do território assolados pela seca na primavera e, em 13 de julho, uma tempestade de granizo destruiu as plantações em toda a região ao redor de Paris. Comunidades inteiras ficaram sem nada da noite para o dia. O inverno seguinte, o de 1788 para 1789, foi o mais rigoroso em quase um século. Os rios congelaram. As estradas ficaram intransitáveis. O pouco grão que sobrevivera ao granizo não conseguia sequer ser transportado. No início de 1789, a França vivia uma fome real. Um trabalhador comum já gastava, em tempos normais, cerca de metade do próprio salário só em pão. Com a crise, essa fatia saltou para 80, às vezes 90% do orçamento familiar. Não sobrava nada para mais nada. A demanda por outros produtos despencou, e isso jogou ainda mais gente na rua, sem trabalho e sem comida ao mesmo tempo. A fome não faz discursos. Ela apenas empurra as pessoas para o precipício, afinal para quem ja não conseguia comprar pão, pouco importava se a culpa era da seca, do tratado ou da dívida. Tudo parecia obra do mesmo governo. **5. O Tratado Que Se Voltou Contra Seu Próprio Autor** Há uma ironia dentro desta história que quase nunca é contada. Ela começa com o mesmo homem que arquitetou a vingança francesa contra a Inglaterra na guerra americana. Charles Gravier, conde de Vergennes, o ministro das Relações Exteriores que bancou os navios e as tropas em Yorktown, era também o cérebro por trás de outro plano, um que ele considerava ainda mais engenhoso. Depois de humilhar a Inglaterra no campo de batalha, Vergennes queria prendê-la pela economia. Abrir o comércio entre os dois países, amarrar a Inglaterra a interesses franceses e, aos poucos, esvaziar qualquer vontade britânica de nova guerra. Foi assim que nasceu, em 26 de setembro de 1786, o Tratado de Eden. Vergennes achava que tinha as cartas na mão. A guerra que a França bancara tinha custado à coroa britânica suas treze colônias americanas e, com elas, um mercado inteiro. Sem a América, a Inglaterra precisava desesperadamente de novos compradores. A vingança voltava agora como bumerangue, só que ninguém em Versalhes percebeu a tempo. Quando o tratado entrou em vigor, em 1787, os números contaram a história. Ferragens e cutelaria britânicas entravam na França pagando apenas 10% de tarifa. Tecidos de algodão e lã, 12%. Em troca, a França ganhava um pouco mais de espaço para vender vinho e conhaque, produtos que, por mais valiosos que fossem, não geravam os mesmos empregos que uma fábrica têxtil. A indústria britânica, especialmente a de algodão, já atravessava havia uma década uma revolução tecnológica. A francesa ainda corria atrás. O resultado foi rápido e sem misericórdia. Em julho de 1787, o próprio embaixador britânico em Paris escreveu a Londres relatando que 25 mil trabalhadores têxteis, só na Normandia, já haviam perdido o emprego. Vinte e cinco mil famílias sem renda, numa única região, num único ano. E o pior foi a coincidência no calendário. O sistema de tarifas entrou em vigor exatamente quando a agricultura francesa começava a ruir sob a seca e, um ano depois, sob o granizo que destruiria as colheitas ao redor de Paris. O operário demitido em Rouen não tinha para onde fugir. O campo, que normalmente absorveria mão de obra das cidades, estava expulsando gente por causa da fome. Fome na cidade e fome no campo, ao mesmo tempo. Há um debate acadêmico sobre o quanto desse colapso pode ser atribuído ao tratado. Mas para o francês comum em 1788, a distinção não significava nada. Fábricas fechando, vizinhos sem trabalho, e um governo que abrira as portas para os produtos ingleses justamente quando tudo desmoronava. Na cabeça dos franceses, o tratado virou sentença. Vergennes, o homem que desenhou o plano, morreu em fevereiro de 1787, semanas antes de seu tratado entrar em vigor. Ele nunca viu as 25 mil famílias. Quem ficou para explicar a conta foi Calonne. **6. O Homem Que Encontrou o Buraco e Foi Enterrado Nele** Em meados da década de 1780, Charles Alexandre de Calonne assumiu as finanças e passou dois anos investigando as contas de verdade. O que encontrou era pior do que qualquer um imaginava: um déficit anual de cerca de 110 milhões de libras, uma dívida se aproximando de 4 bilhões, e mais da metade de toda a receita do governo consumida apenas pelo pagamento de juros. O governo já tomava dívida nova só para pagar os juros da dívida velha. Calonne sabia que só havia uma saída real: um imposto territorial universal, cobrado de todos os proprietários de terra, nobres e clérigos incluídos. Era a resposta óbvia e, ao mesmo tempo, impossível de aprovar pelos parlamentos. Então convenceu o rei a convocar, em fevereiro de 1787, uma Assembleia de Notáveis, 144 nomes escolhidos a dedo entre a nobreza e o alto clero, algo que não acontecia desde 1626. Foi um erro de cálculo catastrófico. Os notáveis rejeitaram o novo imposto, rejeitaram abrir mão de suas isenções e ainda exigiram ver as contas completas. Quando Calonne mostrou os números, o tamanho real do abismo fiscal se tornou público pela primeira vez. Em vez de assumir qualquer responsabilidade, os notáveis culparam o próprio Calonne e exigiram sua cabeça. E, pior, decidiram que só uma Assembleia dos Estados Gerais, que não se reunia desde 1614, teria autoridade para aprovar reformas daquele tamanho. Foi a própria nobreza, tentando proteger seus privilégios, que abriu a porta para tudo o que viria depois. **7. A Explosão** O sucessor de Calonne tentou de novo pelos parlamentos e foi barrado de novo. O crédito do governo desmoronou por completo no verão de 1788. Em desespero, o rei chamou de volta o único homem em quem o público ainda confiava: Necker, o mesmo cuja contabilidade fraudada ajudara a criar a crise. Necker aceitou convocar os Estados Gerais para maio de 1789. Quando a assembleia se reuniu em Versalhes, o Terceiro Estado exigiu voto por cabeça, não por ordem. Diante da recusa do rei, declarou-se Assembleia Nacional em 17 de junho e, três dias depois, fez o Juramento do Jogo da Péla, jurando não se dissolver até que a França tivesse uma nova constituição. Em 11 de julho, o rei demitiu Necker. A notícia chegou a Paris como uma bomba. Três dias depois, em 14 de julho de 1789, uma multidão tomou a Bastilha. Guardava, na época, apenas sete prisioneiros. Seu peso era simbólico: ali estava o retrato de um Estado que prendia sem julgamento, taxava até a exaustão, mentia sobre as próprias contas e deixava a população morrer de fome enquanto a elite se recusava, até o último minuto, a ceder qualquer coisa. **8. O Que Realmente Derrubou o Trono** Voltaire e Rousseau deram aos franceses as palavras para nomear sua indignação. Não foram eles, porém, que a criaram. Ela já estava lá, alimentada por décadas de dívida, por um banqueiro que mentiu, por um vulcão do outro lado do mundo, por um tratado comercial que fechou fábricas inteiras e por uma aristocracia que, diante da última chance real de salvar o próprio sistema, preferiu proteger seus privilégios até o fim. Essa é a verdadeira origem da Revolução Francesa. Não um livro. Não uma ideia nova sobre liberdade. Fome, dívida e a recusa obstinada de uma elite em ceder um centímetro enquanto ainda havia tempo. O alerta atravessa os séculos sem precisar de analogia forçada: todo sistema construído sobre privilégio, segredo e dívida acumulada termina da mesma forma. Ele não cai de uma hora para outra. Ele apenas espera, em silêncio, o dia em que a conta finalmente chega, e quando chega, quem tinha o poder de negociar já não tem mais a oportunidade. Mas o que nasceu ali não foi apenas o fim de um trono. Foi o começo de quase tudo o que ainda nos governa. Foi ali que a liberdade, a igualdade e a fraternidade foram proclamadas com a força de um evangelho político, e foi ali também que o Terror se tornou método de governo. Do mesmo fogo saíram a linguagem dos direitos humanos e a maquinaria do totalitarismo. A esquerda e a direita modernas foram geradas no mesmo berço, como irmãos rivais que nunca deixaram de se odiar e de lutar. O comunismo, o culto da Nação, a ideia de que a política pode refazer a natureza humana, o Estado como engenheiro das almas, a sacralização da vontade popular e a justificação da violência em nome do futuro, tudo isso foi forjado naqueles anos. Pela primeira vez na história, a política se arrogou o direito de criar um homem novo. O mundo em que vivemos, com suas promessas mais elevadas e seus pesadelos mais profundos, ainda respira o ar de 1789. A Revolução Francesa não acabou em 1799. Ela apenas mudou de forma, e continua vivendo em cada disputa sobre o que o Estado pode, deve e tem o direito de fazer conosco.
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ipadasher
ipadasher@ipadasher·
Este é o Hamas e como tratam seu próprio povo👇
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