Karleno Bocarro@KarlenoBocarro
Muito me surpreende que o meu romance "As Almas que se Quebram no Chão", publicado em 2010 (revisto e ampliado em 2024, quando ganhou sua versão definitiva), ainda hoje suscite leituras críticas tão generosas como a que segue:
Análise crítica por Thiago Ferreira
Aviso: esta análise pode conter spoilers.
Li, neste mês, "As almas que se Quebram no Chão", do escritor brasileiro e contemporâneo Karleno Márcio Bocarro . A obra narra uma série de quedas e fracassos que vão desde os insucessos políticos do comunismo na Alemanha oriental até o fracasso na vida individual de Marco Dilthey, o personagem principal da obra. Aliás, os diversos fios narrativos do romance são entrelaçados com a história de Marco, e, por meio deles, vemos o lento declínio e ruína de um personagem até a sua completa destruição moral, espiritual e psíquica, até a sua completa nulificação. Aliás, é assim que a obra é concluída: ele se retira para um lugar que ninguém o encontraria; niemand, niemand, niemand…
Niemand é ninguém em alemão; esse é o resultado de todo o caminho seguido pelo personagem. Aliás, a obra é contextualizada no confronto entre duas culturas: a brasileira e a alemã. Marco Dilthey, cujo nome foi inspirado no filósofo alemão Wilhelm Dilthey (o quanto o personagem expressa ideais do filósofo, isso está além da minha capacidade de análise), viaja para Alemanha Oriental para estudar filosofia no início dos anos 90. Às margens do fim do velho regime, com a queda do Muro de Berlim, ele defronta-se com um ambiente cultural em transformação: entre a repressão socialista e a eficiência egoísta capitalista, uma vida que fervilha entre os dois mundos. Mas, carregado por expectativas e obsessões, a realidade de Berlim sufoca e oprime Marco com a frustração de todos os seus desejos.
É aqui que começamos a lenta e contínua marcha da degeneração do personagem, fundamentalmente por suas obsessões. É angustiante desvelar o abismo de Marco; acompanhamos as várias tentativas do jovem rapaz na busca por seus objetivos e obsessões, movidos pelo desejo sexual e de tornar-se um escritor; impulsionado pela contradição hamletiana entre ser e não ser, ele quer impor-se, ser e definir-se, mas o que se assiste, na obra, é apenas a deformação existencial de um homem. Aliás, essa história é um romance de deformação. Nada na sua vida dá certo; entre os cálculos e cálculos refletidos, todas as decisões do personagem pioram a sua vida.
Ele conhece Bocas, a personificação do mal na obra, personagem que lhe serve como uma ocasião e um modelo de sua destruição moral. Envolve-se com o tráfico de drogas, tem a imaginação pervertida pelas revistas pornográficas e as pulsões sexuais impossíveis constantemente não satisfeitas, sem categorias morais que a vida moderna não pode fornecer para nenhum indivíduo — modernidade que, aqui, surge como um princípio motor para a visão de mundo alemã.
O personagem sofre uma ruína moral e espiritual total e completa. Houve momentos nos quais se lhe abrira oportunidades de mudança e redenção: em certo momento, ansiando por um conforto espiritual, ele procura um volume das Escrituras, mas a vergonha de ser humilhado por tal ato lhe fala mais alto; compra uma revista pornográfica para afastar os próprios fantasmas, enquanto essas imagens preenchiam sua mente com desejos baixos e impossíveis. A Luíza, sua antiga namorada, aparece em certo momento com uma nova oportunidade de mudança, como o seu próprio nome sugestiona: luz. Creio que, nesta obra, fora talvez a única personagem com a qual eu tive consideração e afeição. Mas até essa oportunidade é recusada. Marco arruína-se com a perseguição de seus desejos hedonistas, sem qualquer raiz espiritual e moral que pudesse auxiliá-lo a combater tais vícios.
Enfim, ler "As almas que se Quebram no Chão" foi como receber um forte soco no estômago, ao contemplar o abismo da vida de alguém. Nietzsche, um dos filósofos citados na obra, diz que “quando você olha para o abismo por tempo suficiente, o abismo olha de volta para você”; essa talvez seja a experiência de ler o abismo e degeneração de Marco, pois é um momento para ver que esse também pode ser um abismo no qual se pode cair, bastando a opção de saltar. É desconfortável e é triste, mas é oportunidade para autoanálise quanto às próprias decisões de vida. O abismo da humanidade não é tendência apenas de alguns, mas uma fenda que atravessa a todos.
Ademais, houveram algumas descrições narrativas na obra que me incomodaram ligeiramente, principalmente sobre alguns limites narrativos, e, por um lado pessoal, eu não optaria descrevê-las da forma como foram realizadas, embora tratassem de temáticas necessárias a uma literatura séria e profunda. Apesar disso, é uma obra que indico para quem deseja defrontar-se com o abismo existencial que um ser humano pode alcançar. Já planejo ler a outra obra do Karleno, Advento, recentemente lançada.
(Foto: Gustavo Ponte)