𝕮𝖍𝖗𝖎𝖘 𝕭𝖗𝖆𝖓𝖈𝖔@Chris_Branco
Ed Motta o Enochato.
O caso Ed Motta não é sobre vinho. Nunca foi. É sobre um homem bêbado jogando cadeira num restaurante enquanto tenta desesperadamente preservar a própria fantasia de sofisticação. E isso acaba dizendo muito mais sobre o Brasil do que sobre gastronomia, adegas climatizadas ou taxa de rolha.
Porque o bêbado pobre cai na sarjeta. O bêbado rico ganha aura. Um é chamado de alcoólatra. O outro vira “temperamental”, “intenso”, “boêmio”, “gênio incompreendido”. Basta trocar a pinga pelo Bordeaux e pronto: o vexame recebe legenda cult e trilha de jazz.
Essa criatura que transforma álcool em performance intelectual. O sujeito gira a taça como quem consulta espíritos ancestrais, fecha os olhos teatralmente e anuncia notas de “couro envelhecido”, “terra molhada” e “madeira depois da chuva”. Tudo isso pra justificar o fato de estar, essencialmente, bebendo. Muito.
Segundo os donos do restaurante, Ed Motta, acompanhado do empresário Diogo Coutinho do Couto e outro homem, protagonizou cenas de intimidação e agressividade depois que a casa recusou uma cortesia relacionada à taxa de rolha. Os vídeos mostram o cantor num acesso digno de programa policial das seis da tarde, distribuindo uma cadeirada versão gourmet.
Depois ele admitiu o descontrole, alegando que estava bêbado e que lançou a cadeira no chão, não em alguém. Quase uma tese de doutorado sobre trajetórias éticas do mobiliário arremessado.
Mas o ponto mais curioso nem é a briga.
É a blindagem estética que o vinho oferece ao alcoolismo de certas elites.
Quando um homem admite publicamente que perdeu o controle, destruiu coisas e transformou um restaurante em arena porque contrariaram seus privilégios de cliente antigo, talvez o debate deixe de ser sobre vinho e passe a ser sobre compulsão. Só que ninguém gosta dessa palavra quando ela vem acompanhada de taças de cristal e rótulos franceses.
No Brasil existe uma indulgência quase romântica com o bêbado sofisticado. O cara que faz escândalo depois da terceira garrafa é visto como excêntrico, não como alguém precisando de ajuda. A embriaguez ganha perfume de cultura. O ego vira “personalidade forte”. E o barraco recebe tratamento de anedota elegante pra roda de amigos.
Talvez por isso o episódio tenha causado tanto fascínio. Porque ele desmonta a encenação inteira. No fim das contas, por trás de muito enochato existe apenas um alcoólatra com vocabulário sofisticado, adega cara e dificuldade monumental de ouvir “não”.