O Cafezinho 🇧🇷@ocafezinho
🇺🇸🇨🇳 O que vimos em Munique é estarrecedor, e parece ter saído de uma ficção distópica.
Marco Rubio defendeu uma ditadura militar global.
Uma ditadura sanguinária, violenta e sem leis.
Uma ditadura chefiada pelos EUA, naturalmente, apoiada pelos vassalos do "Ocidente", sem pedir "permissão" a ninguém.
Ou seja, os EUA defendem hoje que o direito internacional seja substituído por uma tirania imperial, hostil à soberania dos povos e ao multilateralismo.
Há algo, porém, profundamente irônico na fala de Rubio.
É macabro, mas irônico que os Estados Unidos tenham se convertido no maior inimigo de um sistema baseado em regras democráticas, em que as decisões que afetam a comunidade internacional sejam tomadas coletivamente, entre iguais, com respeito ao direito de todos.
Num cenário como esse descrito por Rubio, países como o Brasil não teriam nenhum direito, nenhuma proteção, e estaríamos totalmente vulneráveis a todo tipo de violências.
Toda essa diatribe de Rubio foi precedida por uma longa exaltação das violências imperiais dos séculos passados, seguida de um lamento pelas lutas anticoloniais que puseram fim a séculos de opressão.
Não é um discurso sutil. Não há ambiguidade ou metáforas. Rubio defende, sem que seus aliados sejam "acorrentados pela culpa e pela vergonha" (sim, ele usou essa expressão), uma espécie de recolonização do Sul Global.
Francamente, eu sempre paro para pensar, nesses momentos, no que as nossas elites políticas acham desse tipo de barbárie.
O que pensam, no Brasil, os militares, os bolsonaristas, Tarcísio, e a direita "nacionalista" de um Aldo Rebelo, dessa convocação medieval à tirania, à violência imperial, e à destruição de um direito internacional que o mundo vem tentando construir desde o fim da II Guerra?
Naturalmente, Rubio também tenta demolir retoricamente qualquer resquício de respeito que deveríamos ter pela ONU.
O secretário trata a ONU como um entulho incômodo e caro, que não conseguiu resolver nenhum dos conflitos recentes, como o da Ucrânia, Gaza e Irã. Ele finge ignorar, por óbvio, que foram os EUA que vêm bloqueando, deliberadamente, unilateralmente, isoladamente, qualquer decisão da ONU ou da comunidade internacional.
Felizmente, a fala de Rubio não ficou sem contraponto na Conferência de Segurança em Munique.
O orador seguinte foi ninguém menos que Wang Yi, ministro de Relações Exteriores da China.
Wang Yi e Rubio ocupam funções equivalentes na hierarquia de seus governos.
O contraste não poderia ser mais esclarecedor sobre que nações, hoje, defendem um direito internacional democrático, humanista, baseado no respeito mútuo entre os povos, e quem defende uma ditadura dos mais fortes sobre os mais fracos.
Wang Yi agiu como o verdadeiro porta-voz não apenas do Sul Global, mas da Maioria Global.
O chanceler chinês defendeu a ONU — "Sem ela, o mundo retornaria à lei da selva, onde os fortes predam os fracos" — e disse que os grandes países devem liderar pelo exemplo: "cooperação em vez de confronto, igualdade em vez de imposição".
Wang Yi defendeu mais "democracia nas relações internacionais" e que os assuntos globais devem ser decididos por todos. A soberania dos povos e das nações jamais deve ser violada, é o recado da China.
Legendamos e dublamos trechos emblemáticos dos dois discursos, para vocês julgarem com os próprios olhos.
Um celebra impérios escravocratas e sanguinários, e lamenta que estes entraram em declínio no pós-guerra.
Outro defende a igualdade entre nações, um direito democrático internacional, e comemora a ascensão do Sul Global.
Munique 2026 expôs o confronto geopolítico e ideológico que vai definir o século XXI.
De que lado o Brasil vai ficar, a propósito, vai depender do país que emergir das urnas em outubro deste ano.