Rodrigo Lemes@Rodrigoessente
O idealismo filosófico segundo Hegel consiste na seguinte afirmação: "o finito é ideal". (Ciência da Lógica, seção II, cap. 3, sub.cap C, item c. Infinitude Afirmativa Observação 2).
Lênin afirma em seus comentários a Lógica que: "A ideia da transformação do ideal em real é profunda: muito importante para a história. Mas também se vê que aí há muito de verdadeiro no que tange à vida pessoal do homem. Contra o materialismo vulgar. N.B. A distinção entre o ideal e o real não é absoluta nem exagerada" (Cadernos sobre a Dialética de Hegel, n. 183)
O idealismo filosófico gira em torno da ideia de que o finito não é o ente verdadeiro. Portanto, o idealismo para Hegel está sempre ligado à infinitude de algum modo.
Para Hegel toda filosofia é um idealismo. É um idealismo porque ela não se limita ao finito, ela sob ao infinito. Assim, por exemplo, a água de tales não é a água empírica, isto é, o ser-aí carente-de-determinações; é a água enquanto um ideal. Nesse sentido, o ideal indica a infinitude: ideais, universais, princípios, a água, o fogo, arché em geral, o ato, os pensamentos, ideias platônicas, são todos ideais nesse sentido.
Devemos lembrar que o infinito é a unidade do infinito com o finito, isto é, de si mesmo com seu outro. O ser-para-si abarca até mesmo ser-aí, o finito. Mas o que é o ser-aí? O ser-aí imediatamente é a realidade, qualidade positiva. O real é ser-aí, o ideal é ser-para-si. É nesse sentido que Hegel junta o ideal e o real.
O ideal tem duas acepções em Hegel:
1) Ideal (Ideal) é a forma infinita de algo ou a qualidade ou determinidade infinita. Por exemplo, quando Hegel fala do "ideal de belo" ele está falando do "belo infinito". Porém, a infinitude é entendida como algo que realmente é, não uma mera abstração nossa. Então, por exemplo, o homem singular é finito, mas o espírito seria o homem infinito. Neste sentido, o ideal se desenvolve mais para frente como a junção de duas coisas: universalidade e unidade.
2) Ideal (Ideel) é o momento de algum nível maior, ou, o que Hegel chama de suprassumido. Então, por exemplo, o ser-aí é um momento do ser-para-si, ele é ideal. Ou o finito é momento do infinito.
É no ser-para-si que inaugura-se a idealidade. O ser-aí (Dasein) é o ser com uma determinidade, enquanto é determinidade imediata ou essente/que é (qualidade). Essa determinidade é seu limite, portanto, finita. Ser-aí é qualidade, ele não tem qualidade, ele é a qualidade. O ser-para-si (Fürsichsein) é a qualidade infinita. Diferente do ser-aí, o ser-para-si abarca seu outro e, mais do que isso, ele gera seu outro. O ser-para-si é relação negativa infinita consigo, isso que constitui o Uno de Platão para Hegel: essa capacidade de determinar a si e o outro (Múltiplo).
O ser-para-si é a raiz de todo ideal. O ideal no sentido clássico do termo: (i) aquilo que é perfeito ou completo e (ii) acessado apenas pelo pensamento. No primeiro sentido, o ser-para-si é a qualidade plenamente realizada (Ciência da Lógica, seção I, cap. 3), pois ela abarca sua própria limitação e se explica por si mesmo. É por isso que nos Grundrisse Marx chama o capitalista de "ser-para-si do capital". No sentido ii, o ser-para-si é um "universal" sensível, tal como aparece na Fenomenologia do Espírito na figura da Percepção. Só que aqui Hegel faz uma virada: o próprio ideal já aparece como algo sensível-inteligível, como item da experiência, ou seja, o ideal aparece no reino da imediatidade.
Além disso, o espírito é idealista. Representações são "ideais". Então, conceitos, intuições, etc. são ideias no sentido de que são versões suprassumidas de coisas. Por isso, Hegel diz que o espírito é "idealista". Ele não só deixa essas coisas na representação como eleva até o conceito, até sua consideração em si e para si, até o infinito.
A consciência-de-si é a forma mais perfeita de ser-para-si porque abarca tanto o Si/Eu (Selbst) quanto o outro de modo termos a unidade do ser-em-si dela com o ser-Outro.