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FARINHA POUCA, MEU PIRÃO PRIMEIRO!
Quando, ao final da 2ª Guerra, os homens voltaram para casa e encontraram as vagas de trabalho ocupadas pelas mulheres, não foi a necessidade financeira que as fez não abrir mão de trabalhar fora, foi o gosto da liberdade: quem tem do que viver não engole desaforo. Foi então que o cinema, as revistas e os programas de TV criaram aquelas imagens idílicas e rosadas, tão associadas à década de 1950, de mulheres lindas e loiras, maquiadas, unhas e cabelos feitos, com um avental limpíssimo sobre um vestido rodado, assando um bolo numa cozinha impecável, fornida de eletrodomésticos de última geração, enquanto crianças igualmente lindas, arrumadas e educadinhas faziam sua lição, aguardando o papai vir do trabalho. A propaganda berrava "volte para o seu lugar!", edulcorando a realidade mesquinha e a injustiça histórica a fim de destinar aos homens, como sempre, o controle. Então como sempre, como quando os revolucionários franceses usaram as peixeiras de Paris, exaustas de ver seus filhos famintos, como ponta de lança na invasão do Palácio de Versalhes, mentindo-lhes a frase nunca dita por Maria Antonieta sobre brioches e pães, para, depois, guilhotinar Olímpia de Gouges porque ela exigia que a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão valesse também para a mulher e a cidadã. (Oh audácia!)
Então como agora, que o avanço da IA desintegra vagas de trabalho como um estalar de dedos de Thanos. Eis que de repente, não mais que de repente, brotam contas de Instagram em que mulheres lindas, com aventais imaculados sobre vestidos florais bucólicos fazem mussarela e pão fresquinho em farm kitchens dos sonhos, a mostrar a moçoilas algo burrinhas como é maravilhoso o trabalho doméstico que os homens não querem de jeito nenhum. E estas moçoilas burrinhas, açuladas pela preguiça, incapazes de se lembrar se a vovó, em casa, preparando o almoço de domingo, parecia tão elegante, morderão a isca.
Não se trata aqui, longe de mim, de desvalorizar o trabalho e a vida doméstica. Nenhuma das minhas (muitas) realizações nesta vida é mais importante que meus filhos, e o ministério público da união inteiro não tem o valor da minha cozinha inundada com o perfume de uma carninha moída com quiabo e purê de batatas que minha filha sempre pede, ou um bom assado com um risoto cremoso, como gosta o meu filho. Na minha modesta opinião, a desvalorização social destas coisas está na origem da guerra dos sexos que vemos agora e nenhuma solução que não passe por uma valorização real, e não propagandística, do papel de mãe e dona de casa será eficaz. Mas não é este o ponto agora.
A propaganda tradwife não trata de valor, mas de engano. Não fala de agregar valor social e monetário às tarefas que as mulheres executam melhor: gerar, nutrir, cuidar, educar, manter, tarefas às quais a sociedade relega as piores remunerações, quando remunera. Trata-se de convencer as incautas a deixarem de competir pelas cada vez mais escassas vagas de emprego, deixando-as para quem de direito: os homens. Trata-se de fazê-las acreditar que elas serão mais felizes tornando-se dependentes. "Ora", me dirão mocinhas para as quais o valor de uma mulher está não na sua inteligência, caráter, valores ou realizações, mas no fato de serem casadas, "qual o problema em ser dependente de um homem que te ama incondicionalmente?!"
Nenhum, respondo eu! Mas, convenhamos, este homem é Jesus! Todos os outros imporão suas condições. E quando o senhor é bom, até a escravidão é leve. O problema é quando não é.
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