Leandro Iamin@leandroiamin
🇮🇹 Compro a briga de Marco Materazzi - e com ele não brigo, porque tenho juízo. A despeito dos detratores, ele tinha bom passe, era implacável na bola aérea, ótimo taticamente, tinha posicionamento, cobertura, sabia fazer a lateral, era veloz, competitivo, jogador de Copa do Mundo, sim. Violento também? Mais que isso. Materazzi tinha, me parece, uma peça faltando na construção da máquina psicológica comum a um atleta profissional de ponta. Trocando em miúdos pra não parecer que estou dourando a pílula: desleal com incômoda frequência. Moço de Lecce, sul da Bota, sotaque e preconceitos já embutidos como lente de aumento a tudo de errado que fizesse, Materazzi não foi exatamente um injustiçado. Era um personagem ambivalente, isso sim. Sua relação erótica com a botinada, esse prazer em borrar a súmula, não anula as valências que o habilitaram a compor um setor particularmente icônico do imaginário futebolista: ser membro da zaga da Itália, patrimônio imaterial daquele país, equivalente a ser da Orquestra Filarmônica de Viena para um austríaco ou porta-bandeira da Beija-Flor para uma nilopolitana.
Materazzi jogou uma Final de Copa do Mundo. Nela, cometeu um pênalti (não teve culpa), depois fez um gol (bonito), depois cobrou um dos pênaltis do desempate, depositando a redonda no filó do fraco Barthez. No meio disso, tomou, do mais absoluto nada, uma cabeçada no peito de um dos mais elegantes, importantes e hipnotizantes atletas da história, Zinedine Zidane, moço de Marselha, o pai do tempo do jogo. O italiano participa de todos os momentos-chave da partida. Protagonista e vencedor de uma Final. Com ambivalências. Um autêntico anti-herói.
Aos 20 anos defendia o Trapani, clube cujas cores a gente não faz ideia, depois de defender o Marsala e o Tor di Quinto, equipes ainda mais obscuras. Aos 22, idade em que você já não tem muita chance de saltar patamares na carreira, estreou no Perugia, e era uma boa notícia para ele, já tava de bom tamanho, clube mediano, uma carreira estável sem estrelato. Dizem que ele jogou para cacete no Perugia. Foi parar no Everton, da Inglaterra, que seria uma vitrine, um trampolim, mas não rolou, não virou. Voltou, frustrado, ao Perugia, e conseguiu fazer tudo de novo, só que melhor. Aí o bilhete premiado veio. A Inter de Milão, sua primeira e única experiência em um clube grande, acontece só aos 28 anos. É diferente de um atleta que se acostuma desde os 19 a esse tipo de palco. Materazzi tinha cacoetes de jogo bruto de segunda divisão - e, de repente, Inter. De repente, Copa do Mundo.
Na Copa de 2006, Alessandro Nesta, zagueiro especial, moço da capital Roma, sotaque e estereótipos validados pelo país, se machucou antes das quartas de final. Seu substituto natural seria Materazzi, mas sua jornada mundialista já estava em animado andamento, e ele estava suspenso, pois acabou expulso contra a valente Austrália - ele conseguiu isso. Barzagli, última opção, foi para o jogo, e a Azzurra jogou muita bola, 3 a 0 na Ucrânia. Ali Barzagli virou candidato a continuar com a vaga, por merecimento. Materazzi, então, dizem os relatos, começou a roer poste, arranhar telhado, mastigar pedra, causar auê, rodar a baiana, fazer o que fosse necessário para voltar ao time. Voltou, e a Itália, então, eliminou a Alemanha, em Dortmund, maior prorrogação da história, e superou a França, na final, dali para o tetra. Materazzi joga muito, muito, muito, as duas partidas. Presta atenção quando for ver o teipe. Não é qualquer um que acerta tanto, sem ser craque, nos dois jogos mais importantes da vida.
A cabeçada de Zidane em Materazzi, que aposentou o francês com alguns minutos de antecedência e alarmou Fernando Vanucci ainda em seu sofá, cena surreal, infame, estranha a uma Final de Copa, entrou imediatamente para uma lista muito particular, entre o folclórico e o chocante, e também de fácil leitura, desse nosso amado jogo. O mocinho e o vilão estavam desenhados sem grande esforço. Não importa que Zidane, na Copa de 1998, tenha sido expulso e suspenso por dois jogos graças a um pisão maldoso na segunda rodada: um craque desta categoria, em uma desinteligência entre adultos, será tratado, de antemão, com algum acolhimento. "Alguma coisa ele ouviu" foi frase mais dita do que "que agressão horrível" naquela noite. Com sinais trocados, Materazzi não seria compreendido igual - e meio que faz parte, o cara planta e colhe, não é uma completa sacanagem.
É uma cena dantesca. O encontro de dois mundos, dois perfis que sintetizavam aquela final com histórias antagônicas. O Zidane já acordou meio babáu da cabeça naquele dia, convenhamos. Não nos esqueçamos que cobrou o pênalti com cavadinha, que tocou o travessão, entrando por pouco, logo no começo. Isso não é coisa de gente que acordou legal. Deve ser fascinante o cérebro do Zidane. Materazzi sai do Estádio Olímpico de Berlim como autor de um gol e vítima de uma agressão - tudo aquilo que o estereótipo sobre si diria ser o contrário. Os festejos seguintes são generosos com o impecável Cannavaro, capitão do time, vencedor da Bola de Ouro da Fifa, elogiado pelos atributos técnicos, iluminado pelos flashes enquanto seu companheiro de zaga já sabia que, pelo resto da vida, teria que tentar explicar o quê, afinal, falou para motivar Zinedine Zidane a ser obrigado a lhe agredir. Alguma coisa ele falou.
Ele gosta. O Materazzi gosta do personagem, conheço esse pessoal de Lecce, eles são assim. O zagueirão do Perugia foi o cara de uma Final de Copa, e que durmamos com essa.