Karina Michelin@karinamichelin
Mais uma cena que choca o país e revela até onde o Brasil - e suas “autoridades” - chegaram.
A advogada Áricka Cunha foi presa dentro do próprio escritório, em Pirenópolis (GO), em uma operação conduzida pelo delegado Christian Gilmont Mata. A justificativa foi crime contra a honra, por postagens feitas por ela nas redes sociais.
Agora vem a parte mais absurda. O próprio delegado que alega ter sido ofendido é quem conduz a operação.
Ou seja, ele se coloca como vítima e, ao mesmo tempo, como agente que executa a resposta estatal. E nós já vimos esse filme antes, com ministros da Suprema Corte. Esse exemplo começa no topo e passa a ser replicado no baixo clero, sem freio.
Isso é gravíssimo. E o ponto mais básico segue sem resposta - o que exatamente a advogada escreveu para tamanha arbitrariedade?
Esse conteúdo não foi apresentado, não foi exposto e não foi contextualizado. E sem isso, qualquer justificativa perde sustentação.
O que se viu foi uma operação com uso de algemas, aparato ostensivo e armamento de grosso calibre dentro de um escritório de advocacia - um espaço protegido por lei - por causa de supostos posts em rede social.
Crime contra a honra se resolve na Justiça, não com invasão de escritório e espetáculo policial. Quando “agentes” do Estado passam a agir assim, não estamos mais falando sobre justiça, mas sobre abuso de poder.
E o que vemos em Pirenópolis é exatamente isso - um padrão que já vinha sendo desenhado na cúpula e agora replicado na base, com menos controle.
O resultado é um Estado policialesco, justicialista e perigosíssimo, onde ninguém mais está protegido pela “lei”, mas nas mãos de agentes que querem fazer justiça com as próprias mãos.
George Orwell já alertava que o autoritarismo moderno não chega com tanques nas ruas - ele se instala aos poucos, normalizando abusos, distorcendo conceitos e fazendo com que arbitrariedades passem a ser vistas como “necessárias”.
O que vemos no Brasil segue esse caminho, pouco a pouco, o cidadão deixa de ter garantias claras diante do poder. E quando esses limites são rompidos, o que se perde não é só um princípio jurídico - é a própria liberdade!