Tiago Moreira de Sá@tmoreiradesa
No passado sábado, em Lisboa, deu-se o encontro, quase trágico, entre duas concepções da vida humana.
De um lado, uma marcha pela Vida: pacífica, familiar, atravessada pela presença, nunca discreta, de crianças e pela afirmação de que cada vida humana, mesmo a mais invisível, possui um valor que não depende do seu estádio de desenvolvimento. Do outro lado, uma outra concepção: a da negação incendiária da vida como valor. E, nessa negação, a introdução de um objecto cuja função era justamente consumar, pelo fogo, essa negação.
Este contraste acabou por se cristalizar em duas figuras elementares. De um lado, a criança, nascida ou por nascer, e a promessa aberta e infinita nela inscrita. Do outro, uma garrafa de vidro, gasolina e fogo, lançada sobre crianças. De um lado, o símbolo, inscrito na criança, das criaturas mais amadas de Deus; do outro, nas chamas que cospe e com que devora, o instrumento predilecto dos infernos.
Na Marcha pela Vida do passado sábado, Portugal assistiu a um acto que, não fora a falha do engenho infernal utilizado, poderia ter terminado em tragédia. Um cocktail Molotov lançado sobre uma manifestação pacífica não chegou a deflagrar. O autor, sem surpresa “antifa”, foi rapidamente detido e ainda mais rapidamente libertado, como acontece nos países que levam a sério o perigo e a inadmissibilidade de actos terroristas.
Se uma organização parece terrorista, anda como terrorista e grasna como terrorista, então certamente é terrorista, e cabe às autoridades competentes classificá-la como tal, retirando daí as devidas consequências legais. Portugal não pode voltar a tolerar a violência política da extrema-esquerda que, apesar da língua de pau sobre a democracia, nunca se reconciliou com a normalização democrática do país, que se fez não com ela, mas contra ela.
No fundo, como sempre acontece nas questões decisivas, tudo regressa ao ponto essencial: a Vida. Na tradição bíblica, ela é tão radicalmente sagrada que a sua defesa não surge como uma recomendação opcional, mas como um mandamento universal: “Não matarás”. E não por acaso, na tradição judaica, este é o sexto mandamento, o primeiro que figura no topo da segunda tábua da lei: colocado assim frente a frente com o primeiro de todos, no topo da primeira tábua, o da afirmação de Deus.
Como se a própria lei divina nos dissesse que estes dois imperativos se espelham: reconhecer Deus e afirmar a Vida são, afinal, duas expressões inseparáveis do mesmo princípio.