

Leandro Stein
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Nessa idade e o coitado continua falando sozinho





















O recorde de maior artilheiro da história das Copas pôde ser obtido de diferentes maneiras através das décadas. Just Fontaine (13) precisou só de uma edição, absurda, para tomá-lo em 1958. Gerd Müller (14) teve também um Mundial fantástico em 1970, mas dependeu do passo além em 1974. Ronaldo (15) construiu sua marca em quatro Copas, da promessa no banco em 1994 até o consagrado matador de 2006, passando pelo fenômeno de 1998 e pela fênix de 2002. Miroslav Klose (16), um operário da grande área, alcançou o topo pela constância em quatro Mundiais. Por fim, a nova marca estabelecida por Lionel Messi (17, mas já 18) é resultado da excelência, e não só dela, mas também da longevidade que deriva dessa excelência. É como se o recorde estivesse nas melhores mãos possíveis com Messi. Não que Klose não fosse merecedor – ele fez por onde para superar Gerd Müller e Ronaldo. No entanto, ver uma marca que expressa a grandeza estar sob o nome de um dos maiores da história transmite até uma sensação de conforto. É como se o destino, em todo o seu caos, tivesse caminhado à perfeição em seu mistério, para que desaguasse nos pés certos. Messi como maior artilheiro das Copas é como se o mundo estivesse em perfeita ordem. E não que precise ser para sempre também, com a clara ameaça de Kylian Mbappé. Nada é eterno. A perfeição, aliás, pode muito bem passar pelo caos. Porque a maneira como o recorde veio diante da Áustria relembrou como o caminho do camisa 10 até o Olimpo dos Mundiais não foi simples. Os 18 trabalhos de Messi tiveram jejum de gols na África do Sul, troféu perdido no Maracanã, impotência na Rússia. Os capítulos do livro só fizeram sentido quando, no Catar, o craque desandou a fazer gols para superar o seu deserto pessoal e chegar à taça. Sublime. E o Messi sublimado de quatro anos atrás, ainda flutuante na estreia contra a Argélia, desabou por terra no Texas aos nove minutos. O pênalti batido para fora pareceu fazer pesar sua perna. O semideus nos lembrou como até ele erra, e já tinha errado assim outras vezes, contra Islândia e Polônia. As epopeias só são saborosas de ler quando oferecem reviravoltas. Messi, em meia hora, voltaria a levitar. Só assim para explicar como ele passou despercebido da intermediária até a entrada da área da Áustria. Talvez o corta-luz de Thiago Almada tenha aberto um portal, não sei, para Messi estar solitário, lá onde deveria estar. Lá no topo das Copas. O gol do recorde é, como na estreia, um gol com a marca de Messi. O típico gol que todo mundo sabe que ele faz, mas ninguém é capaz de parar: canhota certeira, de chapa, rasteira, no contrapé do goleiro. Nada mais Messi. Desta vez, não saiu para ser aplaudido. Ficou até o fim, teve mais gás. O suficiente para uma arrancada nos acréscimos, a insistência nos rebotes, já seu 18° gol. Foram seis Copas para chegar lá, mais do que qualquer outro. Foram 28 jogos para chegar lá, mais do que qualquer outro. O gênio não teve só que ser gênio, ele teve que perseverar. E perseverou tanto porque é gênio, porque continua acima dos demais, porque segue intocado em seu sexto Mundial. Às vésperas de completar 39 anos, o Messi de 2026 já fez mais gols que outras quatro versões suas em Copas, quando era mais jovem e impressionava semana após semana no Barcelona. O Messi de 2026, porém, só é possível pela somatória de vivências que teve em suas outras versões. É por isso que conhece os atalhos, é por isso que não se abala por um pênalti perdido, é por isso que finaliza com a precisão de quem já repetiu milhares de vezes o mesmo gesto. É a tal excelência que o permite ser longevo. Que bota a Copa em seu lugar. Assine gratuitamente o Almanaque da Copa: almanaquedacopa2026.substack.com




A história de Alireza Beiranvand é daquelas de cinema. De fato, virou filme no Irã: o garoto de família nômade, que fugiu de casa para tentar a sorte como jogador de futebol em Teerã e dormiu até nas ruas da capital, mas virou goleiro de Copa do Mundo. Virou o goleiro que defendeu um pênalti de Cristiano Ronaldo em 2018. E a saga do camisa 1, tão rodada, ganha um novo blockbuster no Mundial de 2026. Foi um absurdo o que Beiranvand fez diante da Bélgica, para sustentar o 0 a 0 em Inglewood. Sua defesa mais difícil, um tiro à queima roupa na pequena área, pareceu criada com efeitos especiais. Aos 33 anos, Beiranvand é um dos jogadores mais experientes do Irã. E um dos mais simbólicos, pela reputação em um time fortíssimo na defesa. A ascensão do goleiro aconteceu rumo à Copa de 2018, especialista nos lançamentos longos para o ataque e dono de excelente envergadura. Foi quando sua história de vida veio à tona. Crescido numa família humilde, que criava ovelhas, teve que lidar com a resistência do pai, que não queria ver o primogênito virando jogador. Teve luvas e roupas rasgadas. Até o dia em que resolveu tentar a sorte em Teerã e comprou uma viagem só de ida para a capital. Beiranvand não tinha parentes em Teerã e estava sem dinheiro. Dormiu na porta de um clube e acordou rodeado de moedas, o que garantiu um café da manhã. Já a oportunidade que tanto queria veio pela benevolência de uma pequena equipe, o Vahdat. O adolescente pôde não só treinar, como ganhou um emprego em uma tecelagem, onde dormia. Trabalhou também em um lava-rápido, em uma pizzaria e como gari. Empenhou-se até chamar atenção da base do Naft Teerã e sua aventura o levou longe. Profissional a partir de 2011, chegou à seleção em 2015. Não saiu mais. O pênalti defendido contra Cristiano Ronaldo em 2018 é seu cartão de visitas. Beiranvand também disputou a Copa de 2022, menos destacado, lembrado por uma colisão que o tirou de parte do torneio. Durante o último ciclo, o veterano chegou a passar alguns jogos no banco, assim passou por escrutínio pelo seu posicionamento político. Mas é um dos melhores goleiro da história do futebol asiático. A Bélgica sofreu com isso. Foram sete defesas de Beiranvand na partida, fechando o gol desde o primeiro tempo. Já tinha salvado o time num chute de Youri Tielemans que tinha endereço. Nada tão fabuloso quanto o incrível lance contra Maxim De Cuyper: o lateral fuzilou da linha da pequena área e, mesmo caído, o iraniano espalmou. Poucas defesas merecem tanto o selo de “milagre”. Mais um ao goleiro cuja própria presença em três Copas soa milagrosa, depois de tudo o que enfrentou.