
andersonfisio77
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Numa final que deveria decidir o melhor clube do mundo, o Estudiantes de La Plata entrou em campo como se estivesse defendendo algo maior que um título. Em La Bombonera, em 22 de outubro de 1969, o time de La Plata protagonizou uma noite que atravessou o futebol e foi parar em delegacias de polícia, quartéis generais e gabinetes da ditadura argentina. A Copa Intercontinental, ainda era uma experiência nova, mas já carregava muita tensão. Disputada em dois jogos, reunia o campeão europeu, da Champions League, e o sul-americano, da Libertadores, num duelo que, na prática, virava disputa de prestígio entre continentes. Para os europeus, a viagem até a América do Sul era vista como exótica. Para a América do Sul, vencer o campeão europeu era uma afirmação de força. O Estudiantes chegava para a final de 69 como bicampeão da Libertadores, mesmo sem ter o prestígio de ser considerado um dos grandes do futebol argentino. Sob o comando do técnico Osvaldo Zubeldía, personagem importante dessa história, o time construiu sua fama com um futebol pragmático e marcado por um jogo físico que frequentemente passava do limite. Do outro lado estava um Milan, da Itália, campeão europeu e decidido a conquistar o título mundial que ainda não tinha. O jogo de ida, em 8 de outubro de 1969, no San Siro, terminou com um 3 a 0 que praticamente matou as esperanças do Estudiantes. Para ser campeão, precisaria de quatro gols de diferença. Para forçar um jogo extra, de três. A volta não seria em La Plata. Como já havia feito no ano anterior, o Estudiantes levou a decisão para a Bombonera, em Buenos Aires. A escolha tinha o objetivo de aumentar a pressão no adversário, usar o estádio como arma, a partir da união de todos os argentinos, inclusive torcedores de outros clubes que lotariam as arquibancadas num jogo que seria vendido como “nós contra eles”, Argentina vs. Itália. Desde antes da bola rolar, o clima já estava montado, com hostilidade e ameaças direcionadas, especialmente a Néstor Combin, que era argentino de nascimento, mas naturalizado francês e jogador do Milan. A dupla nacionalidade dele virou combustível para a torcida. Em meio a um país governado por uma ditadura militar, o jogo ganhou contorno de missão patriótica, e a figura do atacante passou a ser tratada como a provocação de um traidor. Ainda no primeiro tempo, Gianni Rivera marcou para o Milan aos 30 minutos. Antes do intervalo, o time argentino virou com gols de Marcos Conigliaro e Aguirre Suárez, em sequência. No segundo tempo, a partida virou uma sequência de agressões, mesmo em lances sem a bola, e entradas ainda mais violentas. O Estudiantes, sem conseguir a goleada que precisava, descontou a frustração. Pierino Prati já havia saído ainda no primeiro tempo, com uma concussão. Rivera também foi alvo e acabou atingido. A principal perseguição, porém, recaiu mesmo sobre Néstor Combin, que recebeu golpes repetidos e terminou com ferimentos no rosto, sangramento e fraturas, uma imagem que virou o retrato do jogo. O árbitro demorou a agir e as expulsões vieram apenas depois de uma escalada que já tinha produzido feridos e substituições forçadas. Aguirre Suárez e Manera acabaram excluídos. Lembrando que ainda não existiam cartões amarelo e vermelho, que só foram usados pela primeira vez na Copa do Mundo de 1970. O Estudiantes venceu por 2 a 1, mas o Milan ficou com o título pelo placar agregado. O pós-jogo foi a extensão do conflito. A entrega de medalhas foi cancelada, a confusão continuou e a polícia entrou em cena. Poletti, Aguirre Suárez e Manera foram levados e depois acabaram presos por decisão do governo militar de Juan Carlos Onganía. A ditadura entendeu que a violência, transmitida internacionalmente, teria sido uma propaganda ruim do regime. Como forma de resposta pública, Onganía aplicou um decreto que permitiu prender os atletas por 29 dias, acusados de incitação à violência. O episódio ficou ainda mais surreal com o “caso Combin”. Depois de sair ferido do jogo, não voltou para a Itália com sua delegação. Ele foi detido como “insubmisso”, acusado de não ter cumprido o serviço militar obrigatório na Argentina. A situação só se resolveu no dia seguinte, quando o embaixador francês apresentou a documentação de que Combin havia cumprido obrigações militares na França. Além da prisão, vieram também as punições esportivas. Alberto Poletti recebeu banimento “para o resto da vida” em um primeiro momento. Ramón Aguirre Suárez foi punido com 30 jogos no território nacional e cinco anos de suspensão em competições internacionais. Eduardo Manera recebeu 20 jogos no âmbito nacional e três anos de suspensão internacional. Parte dessas punições foram posteriormente revistas e abreviadas, mas os registros variam sobre datas e prazos exatos do abrandamento. Aquela noite entrou para a história como o “Massacre da Bombonera”, uma final de mundial que extrapolou o futebol e arrastou polícia, prisão, diplomacia e ditadura para dentro do resultado. O episódio virou um marco da crise da Copa Intercontinental nos anos seguintes, reforçando o desgaste do torneio e a resistência de clubes europeus em disputar a decisão em um ambiente considerado inseguro. #Estudiantes #LaBombonera #CopaIntercontinental #ACMilan #PELEJA















