
Miguel Pereira Leite
15.6K posts

Miguel Pereira Leite
@mgmpl
Eu, sou eu. Vim ver a bola


Apesar das notícias que dão conta do fecho do espaço aéreo espanhol a todos os voos envolvidos nos ataques ao Irão, certo é que os dois bombardeiros estratégicos norte-americanos Northrop Grumman B-2 Spirit (callsigns TALUS38 e TALUS39) passaram hoje, ao início da tarde, com toda a tranquilidade pelos sectores de Sevilha.








Um em cada quatro créditos à compra de primeira habitação em 2025 financiado a 90% #Echobox=1774877377" target="_blank" rel="nofollow noopener">cnnportugal.iol.pt/habitacao/cred…










O que se passou em Palmela não é apenas uma alegada burla imobiliária. É a exposição nua e crua de um sistema que funciona mal, de leis que protegem pouco e de intermediários que ganham sempre, mesmo quando tudo corre mal. Mais de 120 famílias ficaram sem casa e sem dinheiro depois de um construtor vender os mesmos imóveis duas, três, quatro vezes. Recebeu sinais, prometeu sonhos e deixou ruínas. Até aqui, infelizmente, o país já conhece o guião. O que torna este caso diferente é quem esteve no circuito e quem lucrou com ele. Cinco mediadoras imobiliárias participaram nas operações: Remax, Predimed, Bluecoast, Vicking House e Gesproperty. Todas intermediaram negócios, todas cobraram comissões. A Remax mediou transações no valor de 2,3 milhões de euros; as restantes, cerca de 15 milhões. Nenhuma entregou casas. Nenhuma devolveu dinheiro. Os compradores ficaram com contratos-promessa inúteis. As mediadoras ficaram com os honorários. No imobiliário português, afinal, o risco é sempre do cliente. Durante demasiado tempo, tentou-se vender a ideia de que as imobiliárias são meras facilitadoras, entidades neutras num processo entre vendedor e comprador. O caso de Palmela desmonta essa narrativa. Não se limitam a abrir portas e a anunciar imóveis. Validam negócios, transmitem confiança, legitimam operações. Quando algo corre bem, reivindicam profissionalismo. Quando corre mal, refugiam-se em tecnicalidades jurídicas e na confortável distinção entre marca, franchisada e agente. Para quem perdeu tudo, essa distinção não existe. A gravidade do caso ficou definitivamente clara quando a própria Ordem dos Advogados decidiu intervir publicamente. Na sua coluna "Justiça com Direitos", publicada no Correio da Manhã, foi inequívoca: o construtor montou a burla, as mediadoras facilitaram e a lei permitiu. Não é um comentário de rede social nem uma opinião inflamável. É uma leitura jurídica e institucional do que falhou e do que continua a falhar. Portugal tem cerca de 10 mil licenças AMI ativas, mas apenas 6.500 reportam transações ao IMPIC. Estimam-se entre 36 mil e 38 mil agentes a operar, sem registo integrado, sem controlo efetivo, sem fiscalização séria. Um mercado de milhões funciona, na prática, num regime de confiança cega. O imóvel, nalguns casos, o maior investimento da vida de uma família, é tratada como se fosse um negócio de ocasião. Palmela é o resultado desta leviandade. Há ainda um conflito de interesses que o setor insiste em normalizar: a mediação dual. O agente quer agradar a quem paga a comissão - o vendedor - mas diz representar também o comprador. A Ordem dos Advogados resumiu a contradição numa frase que devia fazer escola: o agente do vendedor quer o preço mais alto, o comprador quer o mais baixo; servir os dois é enganar um deles. Palmela mostra quem costuma ser enganado. A Remax, enquanto marca global, não é acusada de ter montado o esquema. Mas não pode fingir que não esteve lá. O seu nome deu credibilidade às transações. Os seus agentes intermediaram negócios. As comissões foram cobradas sob o seu logótipo. Até hoje, não é conhecido qualquer mecanismo robusto e proporcional de reparação aos lesados. Num mercado disputado e responsável, marcas globais deveriam assumir responsabilidade pelos atos praticados sob o seu nome. Em Portugal, discute-se se a culpa é da franchisada, do agente ou do sistema. Para quem perdeu a casa e as poupanças, a resposta é simples: falharam todos. Palmela não é um acidente mas sim um aviso. Enquanto a lei não mudar, enquanto o licenciamento continuar frouxo, enquanto a fiscalização for simbólica e enquanto as grandes imobiliárias não forem chamadas a responder a sério, os próximos lesados já estão a assinar contratos. Talvez hoje. Talvez amanhã. Com confiança. Com um sorriso do outro lado da mesa. E com a mesma promessa de sempre: "está tudo em ordem e é um excelente negócio". E falo também como cliente, porque esta realidade não me é abstrata nem distante. Já me vi lesado por imobiliárias em primeira mão. Começando pela Remax, onde um agente sem qualquer escrúpulo tentou extorquir-me 500 € para "me angariar um imóvel", alegando despesas de tempo e combustível em visitas. O valor, dizia, seria devolvido caso eu acabasse por comprar uma casa com ele. Uma caução informal, sem enquadramento legal, paga à margem, apresentada como prática normal. Noutra situação, com a ERA, um imóvel foi publicitado com mais metros quadrados do que aqueles que constavam na caderneta predial. O resultado foi previsível: a avaliação bancária ficou aquém do esperado, porque a casa estava sobrevalorizada em 7 m2 que simplesmente não existiam. A proposta de compra que fiz - baseada numa informação errada fornecida pela mediadora - estava muito acima do valor real do imóvel. Perdi o negócio, tive de procurar outro imóvel, pagar ao banco os honorários de uma nova avaliação e contar com a boa vontade do Bankinter para não me cobrar custos adicionais por um novo processo. Não houve pedido de desculpas, não houve compensação, não houve responsabilidade assumida. A agência em causa fechou pouco tempo depois ao que tudo indica por negócios pouco esclarecidos. Neste caso, houve apenas o silêncio habitual de um setor que trata os erros como danos colaterais inevitáveis, sendo o cliente o principal prejudicado. 📺nowcanal.pt/programas/repo… 📺nowcanal.pt/programas/repo… 📺nowcanal.pt/programas/repo…















