𝖗𝖎𝖆𝖓 🌞ॐ࿗@rian_vlbt
Aproveitando o rebuliço do post de ontem, uma thread específica sobre no que realmente consiste o simbolismo de Kālī:
O nome Kālī vem principalmente do substantivo kāla (काल), que deriva da raiz verbal √kal, e pode significar "tempo", "destino", "escuridão" ou "morte", dependendo do contexto. Já Kālī (काली), com o sufixo feminino -ī, é literalmente “a Negra/Escura” ou “a Senhora do Tempo/Morte”. Logo, Kālī = kāla (tempo/morte) + ī (sufixo feminino) -> "Aquela que é o tempo/morte", ou simbolicamente, "A Negra/Escura", representando o aspecto devorador e transformador do Tempo. Todas as formas de Kālī portanto estão ligadas ao Tempo, pois ela é esse próprio poder personificado, que permite a sucessividade que é a forma básica tanto da linguagem como conhecemos (discurso concatenado) quanto da temporalidade que mede a finitude. O tempo é a força soberana que impulsiona e condiciona toda a manifestação da pluralidade do universo fenomenal e das relações de causalidade entre os eventos que se expressam também na sequencialidade que caracteriza o pensamento e linguagem humana ordinária.
Pelo mesmo motivo, Kālī é usualmente iconograficamente representada como tendo um colar de 51 cabeças decepadas, que é uma referência aos 51 fonemas do alfabeto sânscrito, deixando mais evidente ainda a relação entre linguagem/palavra e tempo. Na sua forma causal ela é chamada de Mahākālī (Grande Kālī). Nessa forma, ela tanto contrai a forma da sucessão escondendo o infinito da divindade para gestar o espaço para o surgimento do mundo manifesto, chamada também de Mahāmāyā (que pode ser traduzida como "grande aparência" ou "grande ilusão", mas primeiramente é relativo a matrā, "medida", logo ela é a grande medida, aquela que impõe finitude, a que constitui limitação no espaço infinito do Absoluto), e tendo uma função semelhante ao Tzimtzum cabalístico, (a auto-contração ou auto-recolhimento do divino que permite a manifestação de toda finitude); e também ela que contrai ou oculta o mundo manifesto e finito e permite revelar a luz infinita do divino, sendo chamada também de Yoganidrā, o repouso yoguico da auto-absorção.
Mas ela possui também níveis mais ligados imediatamente ao ser humano e a sua vida ordinária, que são formas suas como o fogo do tempo universal que tudo devora (Kālagni), que significa a impermanência de todas as coisas, e motivo pelo qual é para ela que os cadáveres são ofertados (mais sobre isso adiante). Porém, ela possui também formas mais pacíficas, como por exemplo, aquela que abençoa os lares com o que é propício oportunamente a cada momento, chamada de Bhadrakālī (na segunda foto), uma forma mais acessível dela.
Tendo isso em mente, é fácil entender por qual motivo Kālī frequentemente aparece ao lado de cadáveres. Eles significam o ego (ahaṃkāra) e todo tipo de ilusão finita sendo destruído pela Deusa, que oblitera/devora a cada instante essa finitude como parte do ciclo de criação-manutenção-renovação.
A estética é assim terrível pra chocar mesmo e te fazer sair dessa sua zona de conforto, pra você refletir que o tempo passa e se tocar que vai morrer um dia. O cadáver é principalemente simbolizado na Índia pelos cadáveres no campo crematório (śmaśāna-kṣetra) e enquanto aquela que preside sobre o campo crematório, ela é chamada de vários nomes dentre os quais Śmaśānakālī: pois ela é a grande pira funerária ou campo crematório onde a todo momento estamos sendo continuamente sacrificados a cada instante.
Na tradição tântrica do Kālīkrama (ou Mahārtha), que é o seu culto tântrico por excelência, a deusa é venerada por meio de uma série ordenada de 12 Kālīs. Esse encadeamento na série de 12 expressa, em si, todo o fluxo cíclico do tempo, articulado pelos três processos de surgimento, manutenção e dissolução; cada um deles se desdobra, por sua vez, nos quatro níveis da consciência (vigília, sonho, sono profundo e o quarto estado inominável ou turiyā). O conjunto das 12 Kālīs também se correlaciona com os 12 ciclos das (+)