Lucas Leiroz@leiroz_lucas
Discordo de boa parte dos meus seguidores sobre o professor Jiang Xueqin - youtuber chinês que se tornou viral por suas previsões nos últimos meses.
O que mais tenho visto ultimamente é gente tentando de alguma forma atacar a credibilidade dele ou ligá-lo a serviços secretos (chineses ou americanos). Sinceramente, não sei qual a relevância disso numa era em que todos os grandes influenciadores internacionais são sabidamente ligados agências de inteligência.
Jiang fala bem abertamente sobre sua trajetória. Ele não finge ser um acadêmico - pelo contrário, deixa claro que é apenas um professor de inglês e que seu trabalho com história e geopolítica é "extraoficial". A alcunha de "professor" (que implica autoridade acadêmica em inglês) vem de seus fãs.
Quanto a seu método, tudo que posso dizer é que tem sido eficiente para prever os eventos contemporâneos. Ele utiliza duas plataformas de predição, uma baseada na psico-história e outra na Teoria dos Jogos. Acho que não preciso comentar sobre a Teoria dos Jogos, então vamos focar na psico-história.
É um método herdado da ficção, dos livros de Isaac Asimov, nos quais personagens usam "algoritmos históricos" para prever o comportamento de grandes populações. Apesar de ser sistematizado na ficção, o método não é novo em si mesmo havendo várias teorias cientificamente consagradas que trabalham com conceitos como dinâmica cíclica das civilizações e padrões de repetição dos grandes eventos.
Eu particularmente trabalho profundamente com estes conceitos em minhas leituras, embora eu não tenha a psico-história do Asimov como sistema analítico. Prefiro ler o mundo pela ótica civilizacional de Oswald Spengler, dos ciclos etnogênicos de Lev Gumlev, da geo-história de Carl Schmitt, dos Logoi de Aleksandr Dugin e vários outros conceitos de diversos autores.
Contudo, todos estes autores e conceitos culminam num ponto central: existem padrões históricos que nos permitem entender o "algoritmo" das civilizações e assim antecipar o comportamento de grandes populações. Esse método é excelente para prever grandes eventos, mas insuficiente para predizer ações de curto prazo - como quando uma guerra vai começar, quais serão as consequências imediatas de um conflito etc.
Jiang complementa sua análise histórica com a Teoria dos Jogos para prever com mais precisão eventos de curto prazo. É um método que eu particularmente dispenso, já que sou avesso à ideia de futurologia na análise internacional, mas admito que Jiang tem sido extremamente eficiente em seu uso e tem conseguido uma grande margem de acertos.
E essa quantidade de acertos está simplesmente embaralhando os analistas. Alguns acreditam que ele não tem método algum, e que na verdade seria um agente de inteligência americano previamente ciente das decisões do governo Trump. Isso me parece a maior fantasia possível, ainda mais considerando que ele atua livremente na China, com fama mundial e usando publicamente uma rede social banida em território chinês. Não sei se ele é "espião" ou não, mas, se for, está mais para um ativo chinês do que americano.
Agora, outra coisa pela qual o atacam muito é por supostamente ser um "místico", "esotérico" ou "conspirólogo". Isso porque ele fala em conceitos que são há anos amplamente discutidos a nível científico, como a convergência das escatologias e a existência de camadas profundas de poder (sobre este último, a diferença é que vocês chamam isso de "Deep State" e ele chama de "sociedades secretas").
A convergência escatológica das religiões tradicionais é um tema profundamente debatido no mundo todo - exceto no Brasil, onde ainda insistimos em relativizar a cor verde da grama. Dugin é quem aborda isso de forma mais detalhada, eu diria. O grande problema desse debate no Ocidente é que o materialista iletrado ouve falar em escatologia e já começa a se contorcer achando que tudo é "misticismo" já que ele "não acredita nisso" - como se a crença dele importasse alguma coisa para o israelense falando em derrubar Al Aqsa para trazer o Messias.
Sobre a questão das camadas de poder, eu fico ainda mais impressionado com a ingenuidade de alguns internautas. Alguém realmente tem dúvidas de que todos os países do mundo são governados por sociedades secretas (amigas ou inimigas entre si) detentoras do poder real, das quais os governos oficiais são apenas representantes públicos? Alguém realmente acha que isso é "teoria da conspiração"? Aliás, alguém ainda acredita em "teoria da conspiração" num mundo pós-Epstein?
(OBS: não estou dizendo que o mundo é governo por uma mesma elite secreta - isso seria loucura. Estou dizendo que cada país/região/civilização tem suas próprias sociedades secretas.)
Enfim, tem muitas coisas que discordo do Jiang, mas eu estaria sendo desonesto se dissesse que seu método é uma farsa ou que suas análises são inválidas por ele supostamente pertencer a algum serviço secreto. Penso que as críticas a ele devem ser diretas ao conteúdo, apontando possíveis erros de método e previsões frustradas. Atacar seu "conspiracionismo" ou suas "ligações com a inteligência" não chega a lugar nenhum.
Agora, o que eu posso dizer sem dúvidas é que tanto a popularidade dele quanto os seus odiadores se dão por uma mesma razão: Jiang traz uma base mais sólida para a análise internacional. Ele foge dos clichês liberais das RI, segundo os quais tudo no mundo é um cálculo de "interesses de Estados". O uso da psico-história e de temas escatológicos - e até "conspirológicos" - traz uma base mais profunda para analisar a realidade. Isso agrada aqueles que já estão saturados das análises liberais economicistas - e irrita aqueles que vivem dessas análises.
Por exemplo, Jiang faz um trabalho sensacional ao trazer para o debate sobre Israel, Epstein e sionismo a atuação das seitas extremistas judaicas dos sabatistas e frankistas. É totalmente impossível entender tanto o modus operandi sionista quanto as perversidades de Epstein sem entender quem são os sabatistas/frankistas, quem foram os dönmeh no Império Otomano e por aí vai. Lamento para quem acha que Epstein era apenas um cafetão-espião de Israel, mas a verdade é que tem um fundo teológico-escatológico em tudo isso - e pouco importa se você pessoalmente "acredita" nisso ou não.
Eu diria que Jiang tem um excelente material introdutório à maior parte dos temas que ele comenta. Sua série sobre História da Civilização é especialmente interessante e digna de atenção. Mas não dá para tomar acriticamente como verdade tudo que ele diz. É necessário um filtro, que só pode ser construído com leituras aprofundadas sobre os temas que ele aborda.